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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Um Namorado Virtual

(Diz que hoje eu resolvi passear pelo orkut. Fiz isso por uma boa meia-hora até enjoar de tanto ler "namorando" e ver bonequinhos cabeçudos com olhos de coração distribuindo rosas de mãos dadas estapeando bundas alheias ou comendo cérebros uns dos outros e fazer disso a coisa mais romântica do mundo. Quando eu era adolescente, a gente dividia um picolé de Morango Frutilly...

De repente parece que o ar ficou meio cor-de-rosa e tá todo mundo namorando, menos eu. Todo mundo suspirando e eu olhando pros meus lençóis desfeitos. E nem é que não haja ninguém que eu queira namorar - meu coração tem dado lá suas aceleradas numa direção nova esses dias. Infelizmente, o inverso nunca ocorre e ele vai dormir pensando que eu sou uma mulher Bonita & Inteligente & Liberal pra quem ele nunca vai precisar ligar no dia seguinte. Mais confortável que se eu fosse um sofá de três lugares.

Daí que pensando nisso tudo e me sentindo mais sozinha que Robinson Crusoé numa quinta-feira, resolvi que já estou cansada, até porque hoje completa dez meses do status single, e vinte e três anos sem um relacionamento em que eu não terminasse traída, sacaneada, gorda, arreliada, sem tesão, com a auto-estima baixa etc etc etc. Eu bem que precisava de um alguém que nem precisava ser pra sempre - mas que eu olhasse daqui a alguns anos e suspirasse "ah como Fulaninho era bom".

Daí que, na falta de alguém real e, principalmente, normal e não-traumatizado, resolvi que vou inventar o meu namorado.

E sim, eu tenho esse direito. Crianças pequenas não são censuradas por amigos imaginários, da mesma maneira que um grau moderado de esquizofrenia virual deve ser tolerado em jovens mulheres adultas e solteiras.

***

O primeiro passo é imaginar a aparência. Ele não tem aquela beleza de colírio da Capricho. Na verdade, ele é um pouquinho desengonçado, de um jeito meio atrapalhado que me faz rir e não ficar com vergonha de ser meio destrambelhada também. Ah, e ele vai ser moreno. Uma barriguinha é até desejável.

Ele vai ter o cabelo naquele estágio que a gente pensa "bem que já estava na hora de ele cortar", mas que ainda não ficou grande a ponto de incomodar. Mas a barba, ah, a barba ele vai lembrar de fazer de vez em quando só pra raspar no meu rosto depois. Sobretudo, ele vai ter um jeito de me olhar sério e me derreter inteira, e um sorriso que lembre levemente aqueles estampados em caixa de creme dental. Ah, e ele é alto - qualquer coisa maior que 1,85m - e tem mãos de massagista de spa.

Ele vai estudar alguma coisa que eu não entenda bem, mas ache fascinante - talvez na área de economia ou alguma área social - e com certeza vai pensar que ser jornalista é a profissão mais sexy do mundo. Provavelmente ele tocar algum instrumento também. Vai me achar inteligente até quando eu fizer algum comentário de orelha de livro querendo impressionar, e vai me surpreender de vez em quando me explicando as coisas que eu não conseguir entender.

Ele terá bom humor e vai fazer tanta piada que às vezes vai me irritar e eu vou começar a achá-lo meio criança. Vai ter manias esquisitas que vão me arreliar ou me dar vontade de rir, dependendo do meu humor, e vai ser um saco quando estiver doente. Vai gostar das mesmas bandas que eu e me apresentar uns troços de que eu nunca ouvi falar, e vai se divertir comigo na mesma proporção em um show cheio de gente se apertando na fila do gargarejo ou num arrastapé.

Ele não vai ser nem tão inteligente a ponto de eu me sentir burra, nem tão tapado a ponto de comerter erros crassos de Português e me deixar sem conseguir manter uma discussão num nível decente.Vai fazer piadas e divertir as minhas amigas e depois me abraçar na frente delas. Vai aparecer pra me ver com um bombom de chocolate (só um!) quando eu não estiver esperando.

E, sobretudo, ele vai olhar pra mim e não vai querer me largar mais.

Pronto. Tô namorando. Viu como é fácil?

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Alguém Total

"Vem me abraçar, vem... Vem reparar bem quem é que abraçou quem, pois vou lhe abraçar também. Quem dá um abraço não sabe se deu ou se devolveu ou se perdeu. Quando o abraço sai de alguém e não volta, não envolveu. Anunciou, renunciou, dissolveu. Quem quer um pedaço, um pouco de alguém, abraçando tem! E ainda mais: se o abraço for além de um minuto, aí é fatal! Envolveu e você tem um alguem Total."
(Ceumar)

Nota da Blogueira: Ando precisando MUITO de um abraço desses.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Parem de falar mal da rotina!

O tal do espetáculo da Elisa Lucinda. Eu sou fã da mulher, excelente atriz, poeta melhor ainda, mesmo ela atuando de vez em quando em novela das oito como melhor amiga da moça boazinha.

Mas o gancho nem era esse. É que diz que faz pouco eu andava conversando pelas bandas do EmeEsseEne com um amigo. Dele, eu tenho a recordação de noites de risadas sem fim e cócegas no pescoço. Coisa de amigo baixinho que não consegue alcançar meus saltos pra me dar um beijo decente na bochecha.

Quando é que vamos nos ver de novo?

Ah, mas vocês só saem pra conversar...

Não é a primeira vez que isso parece estranho. De outra vez amanheci o dia na rua, perdemos a hora conversando de novo, um pedaço de trapo pegou o ônibus pra trabalhar o dia seguinte no meu lugar.

Como assim, você me diz que passou a noite na rua e não bebeu?

Bebi, ué, e foram duas garrafas de água mineral. Deu sede depois de falar tanto.

E olha que eu não sou de desprezar caipirinha e cerveja geladinha. Mas vai ver eu sou a última pessoa do mundo que vê graça e até um pouco de magia nas conversas olhando a lua até o dia quase clarear. Vai ver eu estou ficando velha, vai ver não se fazem mais shows como antigamente, vai ver os bares andam cheios demais e eu não tenho paciência pra lista de espera, vai ver a minha cidade é pequena demais, vai ver eu estou mesmo desperdiçando os melhores anos da minha vida e coisa e tal.

Ou vai ver eu só ame a rotina. Ame a segurança de acordar todo dia no mesmo horário, escolher uma roupa mais ou menos do mesmo jeito, ir trabalhar e deixar a imprevisibilidade para o dia a dia das redações. É fato que eu não acordo com a boca de hortelã (!) nem tenho ninguém pra sacudir e, bom, já ficou claro, sem trocadilho, que seis da manhã no meu mundo é hora de ir dormir. Mesmo assim, Chico não poderia estar errado, é bom todo dia fazer tudo sempre igual.

É que eu sou o tipo de menina resistente a mudanças, tão resistente que não gosta nem quando os amigos trocam o número do celular e que sugere ir sempre à mesma lanchonete pra pedir o mesmo sanduíche, nem consigo lembrar a última vez que incluí algo novo na minha alimentação. Eu me divirto jogando baralho.

É fato que eu tenho saudade das borboletas no estômago que antecedem qualquer mudança brusca no dia-a-dia tão igual, sempre tão colorido, mas sempre exatamente com as mesmas cores.

Um dia eu vou voltar a sentir as borboletas de novo, e vai ser para o bem.

Só para eu começar uma nova rotina.

( o poema na íntegra é pra estar aqui)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Pequenas hipérboles númericas*

Trezentas e cinqüenta e oito mil pequenas tarefas de trabalho que eu deveria adiantar para a semana que vem.

Um milhão, novecentos e setenta e cinco mil, quatrocentos e vinte e três mil livros acumulados em cima da mesa do computador e no criado mudo ao lado da cama, esperando para serem lidos.

Duzentos e trinta e seis emails não respondidos.

Oitocentos e sessenta e dois metros quadrados de quarto esperando para serem limpos, um quarto disso de banheiro.

Novecentos milhões de quilos a serem perdidos.

Quinhentos e oitenta e quatro centímetros de cintura a serem perdidos, a metade disso no quadril.

Cento e oitenta e quatro anotações de viagem que renderiam assuntos interessantes para o blog, portanto, cento e oitenta e quatro textos com potencial inescritos.

Zero telefonema até o momento.

Alguém me tira daqui?


*Paradoxo proposital.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Geração Coca-Cola


Eu acabei de tomar uma Coca-Cola.

Simples assim. Não era Light, nem Diet, nem Zero e muito menos o purgante chamado Light Lemon. Só Coca-Cola Coke, geladinha, de garrafa Pet que faz "Tsss" delicioso na casa silenciosa no meio da madrugada.Meu primeiro refrigerante em meses que não é Light, nem Diet, nem Zero, nem Light Lemon com baixo teor de caloria e etecéteras.

Preta, com rótulo vermelho e tampa amarela. A combinação perfeita pra chamar a atenção. Todos os refrigerantes dietéticos já tem a embalagem completamente sem graça, uma versão desbotada das cores originais. A de Guaraná Zero é branquela, com umas listras verdes, no lugar do verde chamativo e provocante da latinha de Guaraná Antactica comum, que me dá água na boca só de lembrar. A de Coca Light, nem se fala. Também é branquela, só que com algumas listras pretas e vermelhinhas. Argh. Eu conheço uma moça que sempre toma Coca-Cola no "serviço", e nunca é Light. É a Coca-Cola normal, naquela lata em vermelho chamativo, quase obsceno. Eu quero aquilo pra mim, chega de refrigerantes desbotados.

Mas era de madrugada e eu estava na cozinha e a garrafa Pet sorrindo e apontando pra mim, do alto da dignidade de sua tampa amarela. Eu giro a tampa com cuidado para não acordar ninguém e ela me adverte: "Tssss, silêncio". Os melhores crimes parecem ser os cometidos silenciosamente.

Eu tinha até esquecido como era o gosto. Parecia que aquela coisa preta no copo sempre tinha parecido com remédio, ou qualquer coisa insípida intragável. Mas não dessa vez. Dessa vez era o doce interminável que acompanhava a língua formigando até onde o tato podia alcançar - Coca-Cola sempre formiga mais que qualquer outro refrigerante.E quem se concentrar consegue seguir o caminho do refrigerante por todo o sistema digestivo, sentindo o esôfago e tudo o mais formigar até queimar de leve o estômago.

Pronto, parou. Tssss. Símbolo de um monopólio comercial característico de um modo de produção capitalista e explorador, de um império estrangeiro alienante, de uma juventude não transviada porque alheia e até de um mundo inteiro de novas celulites em lugares que você nunca imaginou possíveis. Não interessa. Foi assim que descobri que sou viciada em Coca-Cola.