domingo, 28 de dezembro de 2008

Deus, o diabo e os quarto-molares

A Bíblia diz que no sétimo dia Deus descansou.

O que não tá lá é que o diabo, aproveitando-se do sono de Deus (ele olhou pro lado e viu o Senhor cansaaaado, dormindo, literalmente, o sono dos justos) resolveu criar um monte de coisa que não estavam previstas no plano inicial d’Ele.

Viriam aí guerras, fome, injustiças e toda espécie de coisa ruim que tem no mundo. Os dentes do siso, por exemplo, foram uma das criações mais notáveis do carinha lá de baixo durante o sono de Deus no sétimo dia. Foi dada uma atenção toda especial à criação dos quarto-molares.

Especialmente àqueles que resolvem nascer e inflamar na semana do Natal, quando você não consegue achar dentista. Quando, no Pai-Nosso, Deus diz "livrai-nos de todo mal", ele também estava pensando nos tais dentes lá do fundo da boca que só servem para atrapalhar.

Ainda não sei o que vai ser do ano que vem, mas a primeira resolução já está tomada. Me livrar dos dentes do siso.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A Suécia é aqui

Semana passada eu estava numa daquelas manhãs com um espírito de procrastinação que não me deixava cuidar do que realmente importa – isto é, fazer as unhas, hidratar o cabelo ou tirar cravos do nariz. Tá bom, tá bom, eu bem que deveria terminar algum texto atrasado pro jornal ou atualizar o blog.

O fato é que, de um clique a outro, andei xeretando num desses sites de festas as fotos do show de uma dessas bandas da Bahia que passou por aqui um dia desses. Tá lá no IBGE, bonitinho, que 60% por cento da população é parda. Tá lá no comercial do xampu de cabelos cacheados, bonitinho também, que 55% da população brasileira tem cabelos de cacheados a crespos. Nas mais de duzentas fotos (juro!) eu contei doze morenas e uma – só uma! – morena dos cabelos cacheados (não, não era eu).

O resto, tudo loira, do cabelo liso.

Acho que fui enganada pelo IBGE e a minha marca de xampu. Vai ver a pesquisa dos cabelos encaracolados foi feita pelo Ibope. Será que o Brasil, na verdade, é o pais das loiras escorridas e eu é que não sabia?

Saí de casa me sentindo na Suécia, mesmo com o calorão absurdo. Vai ver que, num universo de tanta amônia e formol, está para chegar o dia que vai ser tal e qual dizem que acontece na Europa: vão olhar uma morena de cabelos cacheados por aí e vão achá-la lindona, só por ser do biotipo mais raro naquele país... Alguém duvida? Já estou esperando.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Companhias aéreas e seus mistérios


Sabia que se você comprar duas passagens aéreas em vez de uma só o preço da viagem pode cair quase até pela metade? Indo para Natal, parti a viagem em dois trechos, daqui para Fortaleza e só então pra Natal. A viagem, que costuma sair por R$ 900, ficou em R$ 480. E ainda deu tempo de fazer um sightseeing pelo aeroporto de Fortaleza entre um vôo e outro (mentira, foi um saco ficar sentada lá por quase cinco horas. Mas, bem, qualquer coisa pra pagar a metade do preço).

A minha amiga gostou e resolveu fazer a mesma coisa. Foi daqui para Brasília e depois para São Paulo. Pagou R$ 1019, ida e volta. Vale lembrar que só a ida, se o vôo for direto, sai por R$ 959. E ela ainda teve tempo de visitar um amigo entre uma viagem e outra (mentira também, ele foi vê-la no aeroporto e eles jogaram conversa fora por mais de cinco horas).

O que eu nunca entendi foi porque os preços saem tão mais baixos. As companhias oferecem desconto para quem ficar esperando sentado? Vai ver é isso, deve ter começado com a crise aérea do ano passado. Quem conseguir ficar sentado quietinho por mais tempo em meio ao caos de desinformação e vôos cancelados só paga a metade da viagem e ainda ganha um pacote de biscoito. Bom garoto.

Emitimos mais boletos, cuidamos da sua bagagem o dobro de vezes, mas te cobramos menos por isso. Sempre achei mesmo que companhias aéreas não eram nenhum prodígio de inteligência: servem comida ruim e acham que pessoas de mais de 70kg vão se sentir alimentadas e saisfeitas com minipacotes de amendoim sem casca. Fora que de vez em quando ainda deixam algumas aeronaves caírem por aí. Bom, pelo menos os comissários são bonitinhos.

Vai ver que é por isso tudo que eu ainda acho que a parte mais divertida é ficar nos sites, brincando de combinar as passagens e vendo como é que sai mais barato e quanto tempo você vai ficar se sentindo o Tom Hanks no meio do aerorporto, só que sem todas as coisas legais que aconteciam com ele. Dessa vez, bati um recorde. Natal em Natal, gastando R$ 700 ida e volta, mesmo com a altíssima temporada de final de ano.

E cinco horas de espera. Nossa, tomara que o primeiro vôo atrase.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Terceiro Molar

Mamãe me disse hoje que siso é o dente do juízo. Por isso, depois que ele nasce eu não posso mais fazer besteira.

Dente do juízo?
Deve ser por isso que dói tanto.
Onde eu acho um dentista em plena semana de Natal?

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Natalino, o Espírito Maligno


Se eu fosse o Menino Jesus, teria muito cuidado com esse tal de Espírito Natalino. No meu “Moral e Civismo é com a gente”, da primeira série, dizia que o Natal era a festa da família brasileira. Que a gente comemorava o nascimento do Menino Jesus e por isso as pessoas comiam peru.

Nunca entendi a relação entre Jesus e o peru. Até onde sei, havia bois, vacas e jumentos presentes ao nascimento do Menino – mas nunca vi mencionarem o peru. Vai ver a origem está em algum daqueles evangelhos apócrifos encontrados em cavernas que depoisviram documentários do Discovery Channel. Mas o que o meu livro de Moral e Cívica tão preocupado em me alertar sobre o mundo nunca me falou foi sobre o poltergeist do final de ano: o tal do Espírito Natalino.

Pouco se sabe sobre ele. Desconfio apenas de que ele tem o poder de provocar engarrafamentos intermináveis e filas de rostos enfezados nas filas de carros e de estabelecimentos comerciais pelo mundo afora. Já foi verificado também que o poder do Espírito Natalino aumenta consideravelmente nas proximidades de shopping centers ou qualquer aglomerado comercial de potenciais presentes de Natal à venda.

O Espírito Natalino faz as pessoas brigarem pela última vaga no estacionamento do supermercado e pelo último panetone de frutas cristalizadas em promoção. Enquanto isso acontece, provavelmente em câmera lenta, Simone coloca a gente numa sala de interrogatório - daquelas totalmente escuras a não ser por uma luz fortíssima em cima da mesa – e pergunta o que a gente fez, já que então é Natal. O que eu fiz? Eu não fiz nada, moça. Eu juro!

Deduzo que Simone também também recebeu a visita do poltergeist de final de ano.

Na busca pelo peru perfeito, se briga até pelo lugar na fila do caixa preferencial – eu que não queria estar grávida nem mancar de uma perna numa época dessas. Faz também o caixa do supermercado me olhar feio porque eu passei meia hora na fila pra pagar dois pastéis de catupiry e um refrigerante. Mas eu nem reclamei. Estava quase vendo a aura translúcida por trás dele, parecendo aqueles amigos endiabrados do Gasparzinho. Espírito Natalino? Cá está ele de novo.

A boa notícia é que o Menino Jesus, como todos nós, só faz aniversário uma vez por ano. E se daqui para a frente todos os dias vão parecer 23 de dezembro, com o potergeist cada vez mais poderoso, dia 24 eu espero que ele vá embora. Como numa daquelas lutas de filme de Sessão da Tarde, o Menino Jesus derrotará o Espírito Natalino, com direito a uma explosão colorida carregada de purpurina e um felizes para sempre – no caso, até o dia 25.

E aí eu vou poder comer peru e panetone sem culpa de me pesar no dia seguinte. Mas será que vou ter que me justificar pra Simone mais uma vez? Então, eu sei que é Natal. Mas eu continuo jurando que sou inocente e não fiz nada!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Com Puta Dor

Quando o computador em que você escreve cisma de ficar em resolução 860X640 com 16 cores; quando o Internet Explorer deixa de abrir no computador seguinte; Quando o terceiro computador que você tenta liga trava no meio do texto e não abre mais nada; quando você perde quase cinqüenta linhas de texto por três vezes consecutivas; quando o quarto computador está com o monitor verde e problema no mouse; quando você alega isso tudo e a sua chefe oouve com cara de que acha que você estava tomando água de coco na praia; quando você decide pegar um ônibus para casa às sete da noite para terminar o tal texto e erra na compilação dos dados e tem que recomeçar todo o trabalho às oito da noite; quando a chefe manda uma mensagem em Caps Lock com entonação de quem acha que você estava tomando cerveja na feira; quando o computador de casa também trava e você tem que reiniciar e começar tudo de novo. ..

É quando você, enfim, suspira aliviada às dez e meia da noite e começa, finalmente, a faxina do quarto que era pra ter sido feita no final de semana, mas não deu porque também tinha trabalho a ser feito.

Acho que os 318 pastores fariam um benefício maior nos computadores por que passei nos últimos dias do que em mim mesma.

sábado, 29 de novembro de 2008

A seca, a enchente e o verão radical

Assistindo ao jornal e vendo as notícias sobre a enchente no Sul do país.

Ironicamente, enquanto assisto ao jornal escrevo matéria sobre o semi-árido.

Mais ironicamente ainda, entra o intervalo comercial e o primeiro anúncio é justamente do governo de Santa Catarina. O slogan é mais ou menos assim: "Venha passar férias em Santa Catarina. Aqui o seu verão é radical".

Chega a ser humor negro. Será que esse ano funciona?

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Espelho, espelho meu

Existe alguma garota que fique mais doente do que eu?

Porque quando a gente tem, ao mesmo tempo, faringite, infecção renal e síndrome do túnel do carpo (o novo nome chique para a minha tendinite) é caso para se pensar em mandar rezar uma missa. Ou ir na vigília dos 318 pastores para tirar o meu encosto. Ou chamar uma benzedeira ou tomar um banho de sal grosso, sei lá.

Ou, quem sabe, eu devesse começar a pensar em como vou querer o meu caixão.

Aiaiai. Não quero sair de debaixo dos lençóis tão cedo.

Um Namorado Virtual

(Diz que hoje eu resolvi passear pelo orkut. Fiz isso por uma boa meia-hora até enjoar de tanto ler "namorando" e ver bonequinhos cabeçudos com olhos de coração distribuindo rosas de mãos dadas estapeando bundas alheias ou comendo cérebros uns dos outros e fazer disso a coisa mais romântica do mundo. Quando eu era adolescente, a gente dividia um picolé de Morango Frutilly...

De repente parece que o ar ficou meio cor-de-rosa e tá todo mundo namorando, menos eu. Todo mundo suspirando e eu olhando pros meus lençóis desfeitos. E nem é que não haja ninguém que eu queira namorar - meu coração tem dado lá suas aceleradas numa direção nova esses dias. Infelizmente, o inverso nunca ocorre e ele vai dormir pensando que eu sou uma mulher Bonita & Inteligente & Liberal pra quem ele nunca vai precisar ligar no dia seguinte. Mais confortável que se eu fosse um sofá de três lugares.

Daí que pensando nisso tudo e me sentindo mais sozinha que Robinson Crusoé numa quinta-feira, resolvi que já estou cansada, até porque hoje completa dez meses do status single, e vinte e três anos sem um relacionamento em que eu não terminasse traída, sacaneada, gorda, arreliada, sem tesão, com a auto-estima baixa etc etc etc. Eu bem que precisava de um alguém que nem precisava ser pra sempre - mas que eu olhasse daqui a alguns anos e suspirasse "ah como Fulaninho era bom".

Daí que, na falta de alguém real e, principalmente, normal e não-traumatizado, resolvi que vou inventar o meu namorado.

E sim, eu tenho esse direito. Crianças pequenas não são censuradas por amigos imaginários, da mesma maneira que um grau moderado de esquizofrenia virual deve ser tolerado em jovens mulheres adultas e solteiras.

***

O primeiro passo é imaginar a aparência. Ele não tem aquela beleza de colírio da Capricho. Na verdade, ele é um pouquinho desengonçado, de um jeito meio atrapalhado que me faz rir e não ficar com vergonha de ser meio destrambelhada também. Ah, e ele vai ser moreno. Uma barriguinha é até desejável.

Ele vai ter o cabelo naquele estágio que a gente pensa "bem que já estava na hora de ele cortar", mas que ainda não ficou grande a ponto de incomodar. Mas a barba, ah, a barba ele vai lembrar de fazer de vez em quando só pra raspar no meu rosto depois. Sobretudo, ele vai ter um jeito de me olhar sério e me derreter inteira, e um sorriso que lembre levemente aqueles estampados em caixa de creme dental. Ah, e ele é alto - qualquer coisa maior que 1,85m - e tem mãos de massagista de spa.

Ele vai estudar alguma coisa que eu não entenda bem, mas ache fascinante - talvez na área de economia ou alguma área social - e com certeza vai pensar que ser jornalista é a profissão mais sexy do mundo. Provavelmente ele tocar algum instrumento também. Vai me achar inteligente até quando eu fizer algum comentário de orelha de livro querendo impressionar, e vai me surpreender de vez em quando me explicando as coisas que eu não conseguir entender.

Ele terá bom humor e vai fazer tanta piada que às vezes vai me irritar e eu vou começar a achá-lo meio criança. Vai ter manias esquisitas que vão me arreliar ou me dar vontade de rir, dependendo do meu humor, e vai ser um saco quando estiver doente. Vai gostar das mesmas bandas que eu e me apresentar uns troços de que eu nunca ouvi falar, e vai se divertir comigo na mesma proporção em um show cheio de gente se apertando na fila do gargarejo ou num arrastapé.

Ele não vai ser nem tão inteligente a ponto de eu me sentir burra, nem tão tapado a ponto de comerter erros crassos de Português e me deixar sem conseguir manter uma discussão num nível decente.Vai fazer piadas e divertir as minhas amigas e depois me abraçar na frente delas. Vai aparecer pra me ver com um bombom de chocolate (só um!) quando eu não estiver esperando.

E, sobretudo, ele vai olhar pra mim e não vai querer me largar mais.

Pronto. Tô namorando. Viu como é fácil?

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Alguém Total

"Vem me abraçar, vem... Vem reparar bem quem é que abraçou quem, pois vou lhe abraçar também. Quem dá um abraço não sabe se deu ou se devolveu ou se perdeu. Quando o abraço sai de alguém e não volta, não envolveu. Anunciou, renunciou, dissolveu. Quem quer um pedaço, um pouco de alguém, abraçando tem! E ainda mais: se o abraço for além de um minuto, aí é fatal! Envolveu e você tem um alguem Total."
(Ceumar)

Nota da Blogueira: Ando precisando MUITO de um abraço desses.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Eu ainda morro de arritmia cardíaca...


É que meu coração cada hora bate de um jeito.

Ora quer o feijão, ora o sonho. Ora quer amar, ora quer fechar pra balanço e virar velha ermitona; ora ama, ora odeia, ora quer seguir os sonhos alheios, ora os seus e ora não sabe muito bem quais são seus sonhos...

E aí é com os olhos já (quase) secos que eu consigo seguir de novo.

Minha mãe, com a minha idade, já era minha mãe. Eu, com a idade dela, já tenho um diploma. Talvez mentalizando assim as coisas se contrabalanceiam e Papai do Céu resolve me dar um bônus de tempo, me dando uma reprimenda branda e até um tanto condescendente por ainda não ter entendido de fato o que é que eu estou fazendo aqui.

Eu não acredito mais no ideal utópico de realização pessoal. Mas tampouco acho que deve ficar sempre dividida entre o Feijão e o Sonho. Também não acho que deva optar por um dos dois. Não faço a menor idéia do que vou escolher ou do que vem por aí - e de repente me ocorreu que a maioria das pessoas provavelmente também não sabe.

Como todo mundo, eu vou achar o meu jeito. Todo mundo acha, e todo mundo chora e todo mundo ri algumas vezes. Jajá eu me ponho nos trilhos de novo, é só esse ano de 2008 que tá demorando muito pra acabar.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Velocidade três

Elétrica, acordada, cabeça funcionando a mil. Desde o aniversário o mundo tem girado mais rápido do que o normal. Pode ser culpa dos cinco miligramas extras na dosagem do remédio. Ou o excesso de trabalho. Nas últimas semanas, o horário de deixar a redação tem oscilado entre dez da noite e uma da manhã – quase nunca antes.

E mesmo chegando em casa à uma da manhã ela consegue levantar cedo no outro dia, e passar a manhã no telefone fazendo frila porque de algum modo a gente vai ter que comer no final do mês, não é mesmo?

E de tarde tem pauta empurrada goela abaixo às seis da tarde pra ficar pronta antes das oito e editora reclamando quando eu desço para o shopping às seis da tarde, “pra onde é que tu vai ainda faltando matéria?”. E de tanta pauta enfiada na garganta e tanto sapo engolido a seco achei que tinha ficado mesmo com a garganta inflamada. Mas nem era, foi só uma gripe.

E mesmo espirrando tonta e com um nariz que faria inveja às cataratas do Iguaçu não dá pra parar, continua continua que está tudo girando cada vez mais rápido, mais rápido, mais rápido, os dias escapando por entre os dedos e não dá pra respirar um segundo, quanto mais dormir uma hora extra antes de o despertador tocar.

E mesmo saindo à uma da manhã ela teima em ir encontrar todo mundo e ri e conversa até as duas e teria ficado até o dia amanhecer se ninguém tivesse resolvido ir embora. Domingo, rouca, ela acompanha dez pessoas na praia à noite e respira o vento frio e volta pra casa garganta doendo. Contente, gargalhando, falando alto, pensando rápido, mas com um arranhãozinho que parece que fica sempre ali dentro do peito, só lembrando que se ela não ficar atenta ele pode aumentar e virar um dia, ou vários, de janela fechada e travesseiro úmido.

E, enfim, por cinco minutos ela queria um abraço. Queria ser abraçada, na verdade. Por um alguém específico, que ela ainda não resolveu se quer abraçar porque quando acaba um mês elétrico ela precisa desesperadamente ficar um tempo abraçada em qualquer amigo, ou se é nele que ela quer ficar abraçada, apertada e não soltar mais, não vai embora ainda não, fica aqui e diz que ainda não vai me soltar, por favor por favor por favor.

Mas por fora são altos os saltos e a auto-suficiência. Até feliz. Mas só não acredite se eu disser que estou tranqüila. É tudo mentira.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Coisas a fazer antes dos 24 anos

- tirar carteira de motorista;
- abrir uma caderneta de poupança, um fundo de renda fixa, qualquer coisa que me permita economizar alguns poucos reais por mês;
- arranjar mais um emprego;
- achar um scarpin que sirva no meu pezinho de princesa (sabe a irmã da Cinderela que tinha o pezão e por isso o sapatinho de Cristal não entrou? Sou eu.)
- aprender a acordar cedo;
- aprender a ir dormir cedo;
- emagrecer mais 10kg;
- viajar (Natal, São Paulo, Carolina, Riachão, e onde mais der pra ir);
- ir a Brasília;
- uma vez em Brasília, decidir se é lá que eu quero morar;
- tomar a firme resolução de nunca, nunca mais, começar a gostar de alguém platonicamente;
- conseguir cumprir essa resolução;
- achar bonito o sorriso de alguém que também ache o meu sorriso bonito;
- levar esse sorriso pra casa e não largar dele tão cedo;
- começar as aulas de dança árabe;
- aprender a dançar alguma coisa;
- aprender a lutar alguma coisa;
- alugar um apartamento;
- comprar um carro;
- aprender a fotografar direito;
- voltar a cantar;
- começar uma pós graduação;
- cumprir, antes dos 24 anos, pelo menos metade da lista de coisas a fazer antes de completar 24 anos.

23 é número primo.
É igual ano ímpar, deve dar sorte.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

De repente, Outubro


E eis que chegou Outubro.

O meu primeiro pensamento foi um “até que enfim”, daqueles suspirados aliviados igual fim de aula de matemática antes do recreio. Setembro só tem trinta dias e ainda tem feriado no começo, mas todo ano é assim. Parece que dá 31 de dezembro e não dá 30 de setembro, minha gente! Mas chegou o final de mês, o sol entrou em Libra e finalmente, eu me virei para desligar o despertador do celular e ele piscava 01 OUT 2008.

Bem Vindo, Outubro. Não tento encontrar motivos para ele ser sempre mais benquisto, mais desejado e mais aguardado que março com as noites de chuva de filme e de edredon, ou até mais que dezembro, que cheira a amor e comidinhas natalinas. O motivo mais óbvio é ser outubro um mês de aniversário – o meu! E já falta só uma semana...

Mas é que o décimo mês do ano sempre chega com um céu lindo de brigadeiro e rajadas de vento que estalam todo o forro de casa a ponto de, com os olhos abertos no escuro de madrugada, ela ficar com medo de dormir e acordar com pedaços de PVC por cima da cama.

Outubro também é mês de boas notícias. Este ano, primeiro de outubro levou embora mais um quilo (o sexto!) e pôs no lugar um sorriso e a minha auto-estima de volta. Nunca pensei que fosse tão boa a sensação de ficar puxando toda hora o jeans da promoção porque, olha só, ele anda meio folgado...

Outubro é mês de ver flores numa cidade sem flores e de rir para o mar cor de cinza e a grama esturricada no meio-fio da avenida, vivendo e não tendo vergonha de ser feliz porque, afinal de contas, a vida é bonita é bonita e é bonita, já dizia o poeta. É a primeira noite de sono em meses, é a volta da disposição pra trabalhar, é o lugar comum de andar pela rua com o sol batendo no rosto e inebriada de uma felicidade tão sem razão que até dá medo, uma alegria e um amor pela vida tão assim imensos de maior de grandes que a gente só quer pedir ao Papai do Céu que Outubro dure pra sempre, que não acabe nunca, nunca, nunca...

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A dor de saber exatamente o que se quer

Quando eu era pequenininha que ainda andava pela casa de sandália Ortopé, eu dizia que queria ser pediatra, porque adorava criança. Depois entrei numa de ser cantora, deve ter sido na época que Daniela Mercury (!) apareceu na tevê gritando que o canto da cidade era ela e coisa e tal. Quis ser atriz também, bem antes de prever que dois anos de oficina de teatro na adolescência trariam à tona o meu sofrível, porém reduzido, talento dramático.

Tudo isso antes dos dez anos. Porque foi mais ou menos por aí que eu surgi com uma idéia nova, deixando papai e mamãe de cabelo em pé. Vai ver que era a primeira vez que eles sentiram que a coisa era realmente séria.

Eu queria ser escritora.

Desde que me lembro eu sempre escrevi. Nunca brilhantemente, mas sempre em muitas páginas. Arremedos de crônicas, pouquíssimos contos, cartas e pequenos grandes desabafos a maior parte do tempo. E é desde sempre também a paixão pelas palavras, que na maior parte dos dias me vêm tão fácil e deliciosamente como se tivessem suas próprias formas e texturas, saindo da boca ou da ponta dos dedos ora moles e delicadas como pedaço de miolo de pão, ora como a força do baque duro de um halteres despencando no chão.

Daí que eu decidi que o jeito mais fácil de ganhar a vida escrevendo era sendo jornalista. Aos onze anos, eu já havia escolhido minha futura profissão, mas jamais imaginaria o amor que um dia iria sentir pela imprevisilidade diária das notícias, o orgulho de uma manchete de domingo, a satisfação do poder de mudar um destino na ponta dos dedos. Em nome desse amor passional eu enfrentei família, a possibilidade de queda violenta no meu padrão de vida e até voltei 840km de orgulho engolido a seco, lá da Barroland direto para a casa da mãe.

E o que eu acho que deveria ser a regra, se revelou a exceção. Nunca passou pela minha cabeça a possibilidade de encher meus dias com algo de que eu realmente não gostasse. E de repente, na mesa de lanchonete e um monte de gente reunida, eu só tinha olho comprido pro cachorro quente cheio de maionese que o regime não me deixou comer, enquanto gente tão próxima me contava que o que havia escolhido para fazer pelo resto da vida talvez fosse totalmente diferente daquilo que realmente queria fazer pelo resto da vida.

Cineastas que vão dar boas advogadas, potenciais juízes apaixonados mesmo é por economia e gente que eu sei que sonha mesmo é com História e gente que tá em outro ramo mas que eu sei que encomprida o olho pra Psicologia. Eu parei de pensar no cachorro quente e me perguntei se eu ou eles eram os felizardos. Vai ver eu nunca experimentei mais nada, nunca quis outra coisa, nunca admiti a possibilidade de ser diferente. Enquanto todo mundo que conheço ainda está experimentando, ou conquistando segurança, eu paguei o preço de um sonho.

E agora, faço o quê com ele?

“Lembre que você nem pode mais reclamar”, ele diz. O meu amigo puxa a minha mão lá do canto da mesa e sorri, maroto. “Foi você quem escolheu”. E vai ver, no final das contas, ele tem toda a razão. Entrei em casa pensando que é uma questão de prioridades. E embora eu seja uma medrosa de marca maior, a minha nunca foi a segurança.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Melhor de três

Sibutramina, chá verde, regime.
Maracujina, valeriana, dormir
Leite morno, blogs, insônia.
Tendinite, preguicite, celulite.
Neosaldina, Café quente, acordar.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Parem de falar mal da rotina!

O tal do espetáculo da Elisa Lucinda. Eu sou fã da mulher, excelente atriz, poeta melhor ainda, mesmo ela atuando de vez em quando em novela das oito como melhor amiga da moça boazinha.

Mas o gancho nem era esse. É que diz que faz pouco eu andava conversando pelas bandas do EmeEsseEne com um amigo. Dele, eu tenho a recordação de noites de risadas sem fim e cócegas no pescoço. Coisa de amigo baixinho que não consegue alcançar meus saltos pra me dar um beijo decente na bochecha.

Quando é que vamos nos ver de novo?

Ah, mas vocês só saem pra conversar...

Não é a primeira vez que isso parece estranho. De outra vez amanheci o dia na rua, perdemos a hora conversando de novo, um pedaço de trapo pegou o ônibus pra trabalhar o dia seguinte no meu lugar.

Como assim, você me diz que passou a noite na rua e não bebeu?

Bebi, ué, e foram duas garrafas de água mineral. Deu sede depois de falar tanto.

E olha que eu não sou de desprezar caipirinha e cerveja geladinha. Mas vai ver eu sou a última pessoa do mundo que vê graça e até um pouco de magia nas conversas olhando a lua até o dia quase clarear. Vai ver eu estou ficando velha, vai ver não se fazem mais shows como antigamente, vai ver os bares andam cheios demais e eu não tenho paciência pra lista de espera, vai ver a minha cidade é pequena demais, vai ver eu estou mesmo desperdiçando os melhores anos da minha vida e coisa e tal.

Ou vai ver eu só ame a rotina. Ame a segurança de acordar todo dia no mesmo horário, escolher uma roupa mais ou menos do mesmo jeito, ir trabalhar e deixar a imprevisibilidade para o dia a dia das redações. É fato que eu não acordo com a boca de hortelã (!) nem tenho ninguém pra sacudir e, bom, já ficou claro, sem trocadilho, que seis da manhã no meu mundo é hora de ir dormir. Mesmo assim, Chico não poderia estar errado, é bom todo dia fazer tudo sempre igual.

É que eu sou o tipo de menina resistente a mudanças, tão resistente que não gosta nem quando os amigos trocam o número do celular e que sugere ir sempre à mesma lanchonete pra pedir o mesmo sanduíche, nem consigo lembrar a última vez que incluí algo novo na minha alimentação. Eu me divirto jogando baralho.

É fato que eu tenho saudade das borboletas no estômago que antecedem qualquer mudança brusca no dia-a-dia tão igual, sempre tão colorido, mas sempre exatamente com as mesmas cores.

Um dia eu vou voltar a sentir as borboletas de novo, e vai ser para o bem.

Só para eu começar uma nova rotina.

( o poema na íntegra é pra estar aqui)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Pequenas hipérboles númericas*

Trezentas e cinqüenta e oito mil pequenas tarefas de trabalho que eu deveria adiantar para a semana que vem.

Um milhão, novecentos e setenta e cinco mil, quatrocentos e vinte e três mil livros acumulados em cima da mesa do computador e no criado mudo ao lado da cama, esperando para serem lidos.

Duzentos e trinta e seis emails não respondidos.

Oitocentos e sessenta e dois metros quadrados de quarto esperando para serem limpos, um quarto disso de banheiro.

Novecentos milhões de quilos a serem perdidos.

Quinhentos e oitenta e quatro centímetros de cintura a serem perdidos, a metade disso no quadril.

Cento e oitenta e quatro anotações de viagem que renderiam assuntos interessantes para o blog, portanto, cento e oitenta e quatro textos com potencial inescritos.

Zero telefonema até o momento.

Alguém me tira daqui?


*Paradoxo proposital.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Seis e meia da manhã

Acordada desde as três.
Sonhando com o dia que eu vou conseguir domir uma noite inteira de novo, tipo fechar os olhinhos oito da noite e só abrir oito da manhã, sem insônia ou sonhos esquisitos. Alcancei um novo nível de ódio do meu relógio biológico nos últimos dias.
Novos objetivos de vida: 15kg a menos até o final do ano. E esgotar a pilha de livros do criado mudo até o final do mês que vem.
Centenas de livros começados e não terminados.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O Assalto

Sete e meia da noite, ônibus meio cheio e bem na hora que o trânsito caótico começa a desafogar na maior avenida da Ilha Encantada. Já é praxe. Encosta a cabeça na janela do ônibus, pensa. Quero viajar para Brasília, quero comprar uma poltrona para o quarto, quero viajar para Natal mas a passagem mais barata custa R$ 800. Quero chegar mais cedo no trabalho amanhã, quero ver o jog...

Um puxão na bolsa. Ato reflexo, ela puxa de volta. Recebe mais um puxão. Meio desatenta, olha para cima, interrogativamente.

- Isso é um assalto.

O quê?

Ela finalmente olha em volta. E vê o horror. Revólveres, dois e uma dezena de passageiros abaixados e escondidos entre os bancos e uma cobradora de mãos trêmulas, recolhendo a renda do ônibus e deixando duas moedas cair. Bolsas, compras, celulares, jóias. Medo em todos os olhos, susto em outros, resignação em mais alguns. Ela sente o coração disparar, mas é só. Queria sentir medo, raiva, ficar apavorada, qualquer coisa. O revólver apontado na direção dela. Aquilo não pode estar acontecendo. Ela não esboça reação nenhuma, mas é porque aquilo não é com ela. É num outro mundo, uma dimensão paralela qualquer, um outro ônibus vermelho cheio de gente sendo assaltado às sete da noite na avenida quase engarrafada, mais improvável impossível.

- Me dá o teu celular. Anda, o celular.

A menina e o assaltante se encaram em silêncio por uns dez segundos, quer dizer, uns trinta minutos, ou seja, mais ou menos umas duas horas. Ela tem os olhos vazios e também não consegue ler o que há nos dele. Ele remexe a bolsinha pequena de crochê onde só cabem o celular e as chaves de casa. No bolso, R$ 10 e o cartão do banco e o alívio de não ter saído com carteira, ele nem viu. Ele só leva o celular que, bem, já estava na hora de ser trocado mesmo, nem sei o que ladrão vai querer com aquilo todo arranhado.

Do outro lado, uma mulher, novinha como ela só, segura três sacolas de supermercado. Chora pensando nas filhas pequenas que estão em casa. E se elas estivessem comigo. A outra, atrás, pensa no cordão de ouro e no celular novinho. Eu passo a mão nas costas da mãe, tento acalma-la, desço no shopping já pensando em comprar um celular novo, melhor coisa ter economias guardadas.
Apontaram uma arma pra mim, remexeram na minha bolsa e tiraram meu celular. E eu não consegui pensar em ninguém pra pensar.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Baby, I'm gonna leave you

Segunda-feira, duas horas da tarde e eu à base de café e pães de queijo na redação. O telefone toca.

-Olha só. Fica calma. Lembra que você está no trabalho. Mas eu preciso que você, hm, dê uma olhada no seu e-mail daqui a pouco. Não precisa ser agora, é daqui a pouco mesmo. Quando você tiver um tempo.
-Peraí. O que tá acontecendo? O que foi?
-Nada, nada. Só checa a caixa de e-mails, tá bom? Tem alguma coisa lá pra você. Pra nós todos na verdade.
-Pára com esse suspense. Fala logo.
-Ele vai embora... Ele mandou um e-mail avisando que vai embora.
-Ele quem?

Eu odeio clichês, mas eles são inevitáveis. Ele é o irmão que meus pais não tiveram, o amigo que eu sempre tive, o menino que cresceu comigo. Aquele que na primeira série sentava comigo no recreio e me ajudava a pintar os desenhos do livro de Gramática, mesmo que eu achasse estranhíssimas as influências fovistas que ele tinha para pintura. Para ele todo mundo tinha a cara azul ou cabelos verdes. Vai ver nem era culpa de Matisse, o meu amigo-irmão só devia ter assistido muitos filmes de extraterrestres.

Não foi a pintura vanguardista que nos fez famosos, mas sim a nossa mania de andar juntos o tempo todo, numa idade em que meninos e meninas costumam ter brincadeiras diferentes. Vai ver era por ele ser o único na turma mais novo que eu. Teve um ursinho cor-de-rosa de gravata xadrez que ele pescou na máquina do shopping e não sabia para quem dar, aí terminou ficando comigo e tá pela minha cama até hoje. De boa qualidade, esses ursinhos do shopping. Eu ainda trocava papéis de carta e brincava de boneca, mas das pinturas e amostras grátis de batom que ele pegava na loja da mãe, passamos aos animes e mangás e toda espécie de parafernália oriental que marcou a minha adolescência inteira. Foi com ele também a primeira vez que matei aula de sábado de manhã.

Lá se vão quase dez anos em que a casa dele era o meu porto seguro. Devo ter levado incontáveis amigos e até alguns namorados para lá, apresentando tudo com o maior orgulho, pode ficar à vontade, essa aqui é nossa casa também, é quase como se eu morasse aqui. Acho que nos últimos oito anos mais ou menos, não houve um final de semana em que a casa dele não estivesse cheia de gente de sexta a domingo ininterruptamente, a ponto de todos nós secretamente nos perguntarmos: será que ele não se incomoda? Não sei se já perguntei isso a ele. Sei que ele nunca falou disso.

Quando eu tinha quinze anos eu fui correndo chorar no ombro dele porque os meus pais queriam se mudar para a capital federal e eu não queria ir.
Eu fiquei. Agora é ele quem vai.
Falta menos de uma semana pra ele ir e só mandou um e-mail.
E eu ainda não tive coragem de ligar pra ele e falar do tanto que eu vou sentir falta, porque eu sei que ele vai mandar eu parar de ser dramática e toda emo e blá blá blá.
E vai ficar todo mundo aqui, sem sorriso perene sem o abraço mais fofo do mundo sem as piadas mais idiotas do mundo e sem casa de final de semana.

E tudo vai se resumir num abraço, boa viagem, saudades e tal.