Segunda-feira, duas horas da tarde e eu à base de café e pães de queijo na redação. O telefone toca.
-Olha só. Fica calma. Lembra que você está no trabalho. Mas eu preciso que você, hm, dê uma olhada no seu e-mail daqui a pouco. Não precisa ser agora, é daqui a pouco mesmo. Quando você tiver um tempo.
-Peraí. O que tá acontecendo? O que foi?
-Nada, nada. Só checa a caixa de e-mails, tá bom? Tem alguma coisa lá pra você. Pra nós todos na verdade.
-Pára com esse suspense. Fala logo.
-Ele vai embora... Ele mandou um e-mail avisando que vai embora.
-Ele quem?
Eu odeio clichês, mas eles são inevitáveis. Ele é o irmão que meus pais não tiveram, o amigo que eu sempre tive, o menino que cresceu comigo. Aquele que na primeira série sentava comigo no recreio e me ajudava a pintar os desenhos do livro de Gramática, mesmo que eu achasse estranhíssimas as influências fovistas que ele tinha para pintura. Para ele todo mundo tinha a cara azul ou cabelos verdes. Vai ver nem era culpa de Matisse, o meu amigo-irmão só devia ter assistido muitos filmes de extraterrestres.
Não foi a pintura vanguardista que nos fez famosos, mas sim a nossa mania de andar juntos o tempo todo, numa idade em que meninos e meninas costumam ter brincadeiras diferentes. Vai ver era por ele ser o único na turma mais novo que eu. Teve um ursinho cor-de-rosa de gravata xadrez que ele pescou na máquina do shopping e não sabia para quem dar, aí terminou ficando comigo e tá pela minha cama até hoje. De boa qualidade, esses ursinhos do shopping. Eu ainda trocava papéis de carta e brincava de boneca, mas das pinturas e amostras grátis de batom que ele pegava na loja da mãe, passamos aos animes e mangás e toda espécie de parafernália oriental que marcou a minha adolescência inteira. Foi com ele também a primeira vez que matei aula de sábado de manhã.
Lá se vão quase dez anos em que a casa dele era o meu porto seguro. Devo ter levado incontáveis amigos e até alguns namorados para lá, apresentando tudo com o maior orgulho, pode ficar à vontade, essa aqui é nossa casa também, é quase como se eu morasse aqui. Acho que nos últimos oito anos mais ou menos, não houve um final de semana em que a casa dele não estivesse cheia de gente de sexta a domingo ininterruptamente, a ponto de todos nós secretamente nos perguntarmos: será que ele não se incomoda? Não sei se já perguntei isso a ele. Sei que ele nunca falou disso.
Quando eu tinha quinze anos eu fui correndo chorar no ombro dele porque os meus pais queriam se mudar para a capital federal e eu não queria ir.
Eu fiquei. Agora é ele quem vai.
Falta menos de uma semana pra ele ir e só mandou um e-mail.
E eu ainda não tive coragem de ligar pra ele e falar do tanto que eu vou sentir falta, porque eu sei que ele vai mandar eu parar de ser dramática e toda emo e blá blá blá.
E vai ficar todo mundo aqui, sem sorriso perene sem o abraço mais fofo do mundo sem as piadas mais idiotas do mundo e sem casa de final de semana.
E tudo vai se resumir num abraço, boa viagem, saudades e tal.