Levanta a mão aí se você acha que já perdeu tempo demais. Pois é, eu também parei de digitar por cinco segundos só para levantar a minha. Quando a minha irmã me disse isso – ela, que é cinco anos mais nova – confesso que titubeei. Mas concluí que eu, também, além de ser uma porcrastinadora de primeira, perco tempo sem ser por vontade própria.
Dia desses li um artigo que media quanto tempo perdemos no dia-a-dia. Durante toda a vida, a gente passa quase um mês só fazendo xixi. Sete meses em reuniões de trabalho, quinze dias reiniciando computadores travados (agora sei o que o Bill Gates me deve!) e quatro anos só esperando em filas. Perdemos também sete meses em baladas e três meses fazendo sexo (ok, não é exatamente perda de tempo, mas você entendeu).
Para quem ficou curioso, o texto na íntegra está aqui).
E olha que a tal matéria nem contabiliza o tempo perdido com a indecisão. Os instantes que passo, todos os dias, na frente do espelho s nos provadores da vida me virando de um lado para o outro e perguntando “será que essa roupa me engorda?”. Os minutos de indecisão ao lado do telefone, pensando se ele vai pensar que eu sou grudenta por ter passado o dia inteiro pensando em ligar para ele. Os minutos intermináveis de colo e abraçado e cabeça encostada no peito alheio querendo contar do que vai na cabeça e no coração.
O Renato bem nos lembra que todos os dias, quando a gente acordea, não tem mais o tempo que passou. Mas eu discordo de quando ele dizia que a gente tem todo o tempo do mundo. Eu não tenho tempo é de nada. Logo eu, que até outro dia trabalhava catorze horas por dia, já perdi muito tempo enunca tenho tempo demais. E do pouco que tenho, muito já passou.
Então eu não vou perder mais tempo. Eu vou dizer para você que vai ser tudo ou nada, que eu sei que tem pouco tempo, não vou mais desperdiçar meus dias e minhas semanas com algo que talvez dure só alguns dias e algumas semanas. Eu estou correndo uma maratona e nunca vou parar, e você se quiser que acompanhe o meu passo e fique ao meu lado, porque é isso que eu quero mas não posso ficar parada esperando.
Há corações feito moleque do sinal, feito prostituta parada na esquina, feito eleitor irresponsável. Rendem-se por qualquer agrado. Qualquer firula de sorriso, carinho e rosa vermelha e eles já estão lá, pulando na bandeja de prata e se oferecendo no meio do salão. “Estou aqui, me leva com você”.
Há corações feito guerreiro medieval, feito Joana D’Arc, feito idealistas partidários. Apanham, mas não desistem. Costuram as feridas e, tão logo o machucado começa a sarar, lá estão eles de novo, na fileira de frente da batalha, no foco de luz da pista de dança, em cima do palanque, sentando na cadeira desocupada ao lado do coração alheio.
E, antes que eu me esqueça. Há também corações feito fugidos da prisão, feito conta de político corrupto em paraíso fiscal, feito prestação de contas de autarquia de administração desencaminhada. Só mostram a décima parte do que são realmente, e há que esperar uma verdadeira operação policial, literal ou figurada, para descobrir o que se escondeno meio dos tecidos alheios.
Há, enfim, corações feito labirinto, que convidam a entrar e depois te deixam perdido lá dentro, sem saber para que lado ir para ficar seguro.
- Se continuar assim, vou começar a gostar de você.
Alguém aí já parou para pensar como surgem os apelidos supostamente carinhosos trocados entre casais de namorados? Chuchuzinho, por exemplo. Quem foi a moça que lá nos idos de 1457 concordou em ser chamada assim? Afinal, chuchu é hortaliça de sabor e cor nada convidativos. Coisa de gente que tá de dieta e nutricionista que monta cardápio sem gosto. Aliás, mesmo que o caso fosse para chamar o bem-querer de comida de regime, provavelmente há alternativas mais agradáveis à vista.
- Vem cá, minha berinjelinha. - Aqui não. As crianças podem ver. - Ah, minha folhinha de alface, só um pouquinho. - Tá bom, tá bom, chamando assim eu não resisto. Mas tranca a porta.
Em oposição aos adeptos do amor diet, surgiram logo os defensores do amor adocicado. Chamar o namorado de doçura, docinho, ou ainda usar a variação docinho de coco é não se preocupar com a barriguinha nem o risco de elevação da taxa glicêmica. O problema é que se for mesmo para se entregar aos prazeres (os da carne e os da outra carne, se o leitor bem me compreende), há tantas delícias que “docinho de coco” parece simples demais, quase simplório. Vem cá, meu mousse de maracujá, minha torta de sonho de valsa, minha torta com 12 camadas e biscoito champanhe. Isso sim é amor de verdade. Meu petit gateau. Aliás, se os amantes se tratassem por petit gateau, substituiriam com folga qualquer "je t'aime, oh mon amour". Certeza.
Há casos, por sua vez, que oferecem material fértil para toda a literatura freudiana e de seus seguidores. Caso de baby, bebê, neném e toda sorte de apelidos infantis. Fora os relacionamentos que, pelo visto, também geram crises de identidade. Sobram branquelos trocando olhares embevecidos e tratando-se por “Pretinho” e “Pretinha”. Mesmo o “príncipe” utilizado à exaustão por mocinhas que ambicionam encontrar um par perfeito não é tão seguro quanto parece. D. João VI? Príncipe Charles? Nada encantados.
Quando eu tiver meu próximo namorado, vou tentar ser original. Para evitar confusão quanto aos significados, melhor chamá-lo de coisas que sejam bonitas, gostosas e interessantes para mim e deixar de lado os apelidos convencionais. Me dá um beijo, meu pacote de batata frita! Vem cá, meu doce de leite diet! Amo você, meu jardinzinho cheio de girassóis! Você é tudo para mim, minha discografia dos Beatles! Funciona?
Eu sempre fui muita. Não muitas, no plural, de querer ter múltiplas personalidades e assobiar e chupar cana, tocar o sino e acompanhar a procissão e bancar a bipolar, virar um caso de terapia freudiana. Quis dizer superlativa: muito grande, muito inquieta (ou quieta demais), muito bonita ou muito feia. Como demais, compro demais, amo demais, penso demais. Uma existência tão superlativa assim cansa, tira noites de sono, acumula caspa no cabelo e mistura espinhas tardias com rugas precoces de pura preocupação.
Boa parte de tanto grau aumentado nos meus adjetivos deve ser por compensação. É que fui uma criança pouca: falava pouco, comia menos ainda, só chorava e cuspia fora a sopa que d. Aricelia tentava me obrigar a comer. Criança de poucos sorrisos, cara de poucos amigos.
Deve ser difícil conviver ao lado de gente muita. Na sua mania de superlativo, é sempre difícil entender o que elas estão pretendendo. Várias dessas gentíssimas abrem portas com estrondo e vestido vermelho e melancia pendurada no pescoço, falando alto e avisando ao mundo inteiro para olhar bem para elas.
E tem também gente que é muita, mas é o oposto: diminui o tom de voz, senta na cadeira do canto e se encolhe, só percebendo o ambiente ao redor. Afinal, ela é tão muita que está com medo de não caber, de chamar a atenção demais, de ser mandada embora porque, como o próprio nome deixa claro, exclusividade não é privilégio de muita gente – ou de gente muita.
O ruim é que gente muita vive pouco. Pensa tanto e tanto sente que age cada vez menos ainda. Muito tenta se afirmar para o alheio que pouco percebe do mundo à sua volta. Muito lê e pouco retém, muito planeja e pouco realiza. Muito se cansa. Papai do Céu, faz-me menos?
Com crise de tendinite após algumas horas de jogo, é fácil determinar quando acaba uma fase e começa outra. Geralmente é quando a gente passa pelo chefão. Então aparece alguma luzinha ou animação comemorando o feito, eu ganho mais alguns pontos de vida, pontos de armadura, um item novo ou aprendo alguma magia diferente. Quanto mais poderoso é o chefão, e quanto mais alto é o nível a que você quer chegar, maiores são as recompensas. Essa mesma mudança de ciclos já não é tão fácil de determinar fora do universo de fantasia. Além de não ter chefão (quer dizer, às vezes tem), os sinais da transição para a fase seguinte são sutis. A gente não sabe bem o que é, mas percebe alguma coisa diferente pairando sobre os ombros. Pode ser alguém que nos desvia os olhos ou um nome que não aparece no quadro ao lado dos outros. Parece que o sol nasce de um jeito diferente.
Saio na rua e o asfalto mede as solas dos meus sapatos com ar de desdém. As esquinas cochicham entre risinhos porque sabem o que vai me acontecer na próxima meia hora e eu não. Se eu tivesse teclado, mouse e monitor na minha frente, o desafio não seria tamanho: mata o monstro, passa de nível, uma espada nova, que legal, prometo que vou jogar só mais cinco minutos, quer dizer, mais dez, parabéns, você chegou ao nível 4542345368, clap, clap, clap. Só que nas últimas semanas parece que o videogame pifou e eu fiquei sem espada, sem armadura e sem superpoderes. Pior: parece que deu um defeito no gráfico e eu fiquei presa no limbo entre uma fase e outra, sem saber qual será o desafio seguinte. Só eu, com dezenas de currículos e listas de prós e contras, num jogo que não dá para salvar, dar pausa ou reinstalar.
Posso confessar uma coisa? É que eu até me divirto, mas nunca zerei jogo nenhum.
Eu cresci com a MPB para virar adolescente roqueirinha, depois fiquei presa nos anos 60 e 70 e me apaixonei tanto que não quis mais sair de lá. Daí que veio o convite dela (colega de profissão que eu nem sabia que passeava por aqui!) me convidar para o meu segundo meme. Novamente, um musical. Mas que desafio!
Eu já fiz uma seleção de músicas aqui. Mas dessa vez, as regras são diferentes. A idéia, ela me explicou, é “mostrar quem eu sou (ou quem estou) por meio de uma seleção de 13 músicas”. Como eu vou fazer isso? Eu, que escuto umas trezentas faixas por dia? Eu, que pensei em deletar o Office do meu computador para ter espaço para mais arquivos em .mp3? Como selecionar apenas 13, de milhares, sem ser injusta?
Mas o fato é que eu sei reconhecer um bom desafio quando vejo um.
Os critérios para escolha são diversos. Várias estão de fora com um nó na garganta. Escolhi algumas pela letra, outras porque tem o poder de me colocar para cima quando eu estou para baixo, outras porque me dá vontade de dançar assim que eu as escuto, outras porque me dá vontade de gritar. Todas porque estão na lista das que eu escuto todos os dias.
Conheci O Teatro Mágico exatamente no dia em que fui aprovada na monografia, já que as nossas apresentações por aqui caíram no mesmo dia. Apesar da nota dez – minha e deles – eu vivia uma fase ruim. Tornou que eles me ajudaram – cantam tudo o que eu tenho vontade de dizer, só que mais bonito. Essa eu escuto umas dez vezes todos os dias. Eu deveria ter escrito, parece que ela fala por mim.
Outra que está definitivamente na lista das que eu queria ter escrito. A sua beleza é bem maior do que qualquer beleza de qualquer salão. Eu sei, baby. Eu também acho, às vezes, que eu não preciso de salão de beleza.
“All you have to do now is take these lies and make them true somehow”. O refrão é chicletinho, mas eu confesso que nunca prestei atenção direito nessa letra. Sabe como é, eu estava ocupada demais dançando.
Uma rede balançando. Um pai fazendo carinho nos cabelos da filha que tinha insônia desde pequenininha. Uma música cantada com voz meio desafinada. Uma moça que pode ter mil anos de idade e não vai conseguir escutar esse samba sem chorar.
Há melhores e mais famosas, tenho certeza. Mas essa é uma das minhas preferidas do quarteto de Liverpool. Diz pouco, mas faz o essencial. Acalma e traz paz nos dias tão cheios que a gente se pergunta se jogou pedra na cruz ou se foi a própria cruz que resolveu cair em cima da gente com prego e tudo.
Porque Elis é demais, porque lembra minha infância, porque me lembra que eu sonhava em cantar quando era mais nova, porque tem poucas vozes como a dela. Porque toda vez que eu escuto esse vozeirão me dá um quê de atrevimento, uma vontade de esquecer de passar creme no cabelo e ir desabafar na multidão. Só ainda não sei ainda com quem eu vou.
Outra que eu posso ter mil anos e ainda vai me dar nó na garganta. Disseram para mim uma vez que a música é sobre “O amor nos tempos do cólera”, do Garcia Marquez. Não sei se é. Sei que poucas promessas de amor são tão lindas e verdadeiras como essa.
Porque Rolling Stones é vida. Porque é rock. Porque é arte. E porque todo mundo para conviver comigo tem que passar no teste dos Stones – isto é, me ver dançando e cantando num show, descabelada, rouca e com a maquiagem borrada, e não ficar com vergonha de dizer que me conhece.
Faz dois anos que não damos uma festa sem essa música. Vale mencionar inclusive o episódio da noite de Ano Novo, quando o Michael não queria ser tocado de jeito nenhum e, quando forçamos a barra testando três CDs diferentes com a mesma música, faltou energia.
Clássico do blues de 1965. A versão original não é dele, mas é a minha preferida.Porque ele inspirou gente como Eric Clapton e Steve Ray Vaughan. E porque é a trilha sonora constante de todas as noites nos carnavais com jazz e blues. Esse ano, voltei rouca de tanto fazer o coro “riiide Sally riiide”...
12 – Running Wild (Johnny Reid)
Minha música de acordar preferida. Perfeita para aqueles dias que você acorda com o astral lá em cima e vontade de dominar o mundo. Pensando bem, ela também resolve a maior parte dos casos de mau humor.
“I was her love, she was my queen, and now a thousand years between”. Doce no começo, azeda no final, gosto de tangerina. A música que batizou meu blog.
Primeiro foi a escala do plantão de Carnaval que não saía. Jornais precisam circular todos os dias e é claro que assinantes e leitores não dão a mínima se o repórter quer viajar no feriado. A paciência nunca foi minha amiga. Tirei passagens de avião, pensando que se houvesse problema eu sempre poderia trocar. As passagens. Ou o emprego. Sei lá.
Depois veio a desproporção entre o número de amigos dispostos a acampar e o número de barracas disponíveis. Munida de todo o meu espírito aventureiro, até saí de casa disposta a comprar uma barraca. Provavelmente Carrie Bradshaw me alcançou no meio do caminho, porque voltei para casa sem barraca – mas com um par de sapatos novos que custaram praticamente a mesma coisa. E não me olhe assim. Os sapatos são lindos. Tão lindos que vão ficar por aqui – nem em sonho eu arriscaria usá-los num camping debaixo de chuva.
Claro que, depois dos $apato$, a condição seguinte só poderia dizer respeito à minha, er, falta de condição. As cifras se acumularam diante dos meu olhos e eu ficava mais desesperada quanto mais comparava a lista de despesas de viagem com o meu saldo bancário. As contas ainda vão estar aqui em março, lembrei. Já outra oportunidade igual, só em 2011.
Daí aconteceu que eu não tinha mochila e poucas coisas são tão incômodas quando se quer bancar a mochileira que a falta deste apetrecho básico. Meu cunhado me emprestou uma mochila escolar simples. Não coube metade do que queria levar. Abri mão de um jeans e duas camisetas e sentei na mochila para conseguir fechar o zíper. Melhor, assim eu não compro nada por lá, já que não tem onde trazer.
Três dias antes da viagem recebo a notícia de que a barraca que conseguiram para mim não serve. Um tarde inteira de telefonemas desesperados até aparecer uma barraca extra, cujo estado já me preveniram que pode não ser dos mais aconchegantes. Contanto que não inunde igual à do ano passado. Procurando informações sobre a viagem na internet, descubro um boato de que não há mais passagens de ônibus para completar o trajeto. Descubro tsmbém que estou sem poder fazer ligações interurbana e fico sem ter como checar com a empresa que faz as viagens.
Passo a antevéspera e a véspera da viagem febril, gripada, nariz entupido e tossindo nojento e quebrando de catarro. Não ficava tão gripada assim desde... espera, eu já fiquei gripada desse jeito?
Quase sempre que algo não me é essencial e fica complicado demais eu desisto. Um convite para sair que chega cheio de empecilhos, uma balada sem companhia, um relacionamento que iria requerer investimento e uma boa dose de luta para dar certo. Eu sempre achei que os pequenos empecilhos eram cones que o destino colocava no meio da estrada para nos avisar que não devíamos ir por ali.
Só que esses dias eu fiquei com vontade de ziguezaguear por entre os cones.
E é por isso que, daqui a cinco horas e meia, eu vou.
Originária da China, a tangerina só chegou ao Ocidente por volta do ano 1800. É uma fruta cítrica de cor alaranjada e sabor adocicado, originária da Ásia. No sul do Brasil, é chamada de bergamota; no Sudeste, de mexerica. Normalmente é colhida entre os meses de maio a agosto, mas a safra pode ir de abril a setembro. A casca possui concentrações elevadas de vitaminas A, B1, B2, Niacina, vitamina C, cálcio e fósforo, podendo ser usada para fazer doces e geléias. O valor nutritivo do suco ou da polpa varia conforme a espécie, mas é sempre boa fonte de vitaminas A e C e sais minerais como potássio, cálcio e fósforo. No Brasil, o maior produtor de tangerina é o estado de São Paulo, que responde sozinho por cerca de 3% da safra nacional.
Tangerine (Led Zeppelin)
"Measuring a summer's day I only find it sleeps away to gray The hours, they bring me pain Tangerine, Tangerine Living reflection from a dream I was her love, she was my queen and now a thousand years between Thinking how it used to be Does she still remember times like these? To think of us again and I do.
Tangerine (Eternal Sunshine of the Spotless Mind)
Clementine: You like? To match my sweatshirt, exactly. Joel: I like it! Clementine: You do? Joel: You look like a tangerine! Clementine: Hmmm, Clementine the tangerine. Joel: Juicy... 'n seedless. Clementine: I like that.
O que é que você vai fazer amanhã quando acordar? E daqui a cinco anos? Se você tem uma resposta certa, então nós não temos isso em comum.
Eu já tentei tocar violão e ser atriz e cantar e nadar e escrever. Nada deu muito certo, talvez porque eu nunca consigo fazer planos para um espaço maior que os próximos cinco minutos. É que quem muito pensa pode até aproveitar menos. Mas tem blog, porque escreve mais do que todo mundo.