quarta-feira, 11 de maio de 2011
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Sujeito Paradoxo
Esta é a história de um coração sobressaltado, mas você nem perceberia se eu não repetisse isso o tempo todo. Preferiria observar os meus olhinhos que tem todo o jeito de preguiçosos, mas estão mais é querendo furar o teto pra poder contar estrelas. A preguiça gostosa esconde noites de insônia. É tudo tão contraditório e tão verdadeiro quanto a delícia que é um par de mãos mexendo o meu cabelo no fim do dia.
- Adoro que você fica um tempão ajeitando o cabelo e, quando pára, ele está exatamente igual ao que era antes!
Mas essa também é a história de um manequim que dminuiu quatro números. A história da autoestima no topo do mundo, de um jeans roído de traça que serviu depois de três anos, de minissaia e short curtinho sem culpa. A preguiça gostosa também é excesso de glicose por descostume depois de tanto tempo sem comer doce.
- Você já quer ir pra casa? Vamos pegar outro milkshake.
E, finalmente, essa é a história de vinte tipos diferentes de sorrisos, retribuídos com outros tantos elogios, somados a outros tantos litros de gargalhadas, subtraídos de um restinho de medo que ficou empedrado no fundo do coração-paradoxo sem dissolver.
- Eu me divirto demais com o som dessa sua risada, parece uma Kombi desalinhada fazendo a curva.
Mistura tudo que dá gosto de chocolate. Daí o jeito é ir só aproveitando, rendendo igual criança com bombom, lambendo devagar a ponta do dedo. Claro que tudo com muita (im)paciência.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Coração Estudante
Em alguns, Ele pôs um daqueles de orquestra de música erudita: sempre no tempo e na intensidade certa, sabe a hora de acelerar e bater com os pratos num momento particularmente dramático para, logo em seguida, desacelerar e ouvir quietinho os violinos que acordam as borboletas no estômago. Nunca saem do compasso. Eu já devo ter ouvido falar de algum assim, mas tenho quase certeza que havia anões ou sapatinhos de cristal envolvidos. Não me lembro.
Já viu gente com compasso de música tecno? Dá para gostar deles, de início. São acelerados num ritmo que dá vontade de acompanhar. Por uns tempos, você se diverte e entra na dança, mas o compasso repetitivo pode acabar minando a sua vontade de continuar na roda. Conheço muita gente assim. Em geral, eles não se perdem – mas são pouco criativos. Geralmente nascem, crescem, reproduzem e, embora façam isso com relativa perfeição, sempre morrem no final.
No extremo oposto, também já conheci uns que tem dentro de si toda uma bateria de escola de samba: batucam tão rápido e mudam tanto de compasso que você tenta e os pés não respondem. Tenta brincar de matar barata como lhe ensinaram para dançar direito e percebe que aquele ritmo não é o seu, e é melhor cair fora rapidinho antes de ser levada pela adrenalina constante da comissão de frente mais carro alegórico, alalaô, abre-alas que eu quero passar. Já deixei ir faz tempo, fiquei para trás.
A maioria de nós, porém, começa com pequenos aprendizes dentro do peito. Desses que vira e mexe erram o compasso, perdem o tempo, falham uma batida. Improvisam um quatro por quatro acelerado quando a situação pedia, no máximo, um reggaezinho suave. Ou, pior, você está lá procurando um sintetizador de pancadão carioca e ele improvisa, no máximo, uma balada. Dizem que cabe à gente ensiná-los.
Ensinar não é fácil, pergunte a qualquer jovem estudante. Coordenar caixa e bumbo e surdo e pratos e átrio ventrículo sístole-diástole. Mas há quem diga que, bem orientados, estudantes aplicados podem se aproximar até mesmo dos tais integrantes de orquestra erudita acima descritos. O problema é que eu, que sempre fui estudante inteligente, mas preguiçosa, claro que tinha que vir com um baterista igual. Toda hora ele erra uma batida. Só que, para falar a verdade, são os meus momentos preferidos. Porque é quando falha uma batida que a gente perde o fôlego. E eu não vejo a hora de ele errar o compasso outra vez.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Página do meu folhetim
Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que não entende muito de sim. Não faço questão de renda nem prenda, mas bem que me divirto numa noitada boa, cinema ou botequim. Se acaso me quiseres, sorria e simplifique, que amor complicado demais é coisa pra adolescente ou poeta ultrarromântico, e eu sempre preferi os modernistas a esse povo que morria de tuberculose.
Faço questão, porém, de intensidade. Se acaso me quiseres, é preciso me querer inteira. Mulheres completas não admitem serem tomadas só pela metade. Mais importante ainda é querer demais, com a intensidade disfarçada de candura de um texto de Vinicius. Mulheres superlativas não aceitam serem queridas em doses homeopáticas.
Eu te farei as vontades, mas nada de meias verdades: me fiz tão inteira que ficaram arestas por aparar. Eu rio no ritmo da alegria alheia e às vezes exagero sem perceber que é hora de tratar sério. Se acaso me quiseres, é preciso ter sorriso de olhos fechadinhos para me acompanhar. Gente que muito ri não confia em gente séria.
Se acaso me quiseres, esqueça rosas: dê girassóis só para me ouvir gritar e bater palmas igual criança. Se acaso me quiseres, me desconcerte e depois me faça gargalhar, me invente palavras e apelidos impublicáveis, decore a curva da minha cintura com as mãos, brinque com o meio das minhas costas até fazer formigar ao mesmo tempo a nuca e a sola do pé. Mas se acaso me quiseres assim tão rápido, preciso pedir que vá com calma. É preciso muito olho no olho e telefonema e uns tantos beijos de canto de boca até eu ter certeza que na manhã seguinte, quando eu contar até vinte, você ainda estará lá. Isso se acaso me quiseres mais que página virada.
E se por acaso eu quiser também, passo o microfone do Chico para a Rita e faço um rock desse samba. Ignoro as bochechas vermelhas da timidez e só peço, não leve a mal. Eu só quero que você me queira...
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Olhos de Retrovisor
Tem gente que nasce com olhos de retrovisor. Olha para trás a hora que quer e relembra e revisa o próprio passado com uma exatidão que é de assustar. Mudando um pouquinho de ângulo, as pessoas com olhos de retrovisor também conseguem olhar para dentro de si sem esforço. À primeira vista, é gente que empina o nariz e sorri, pensando ter conseguido a máxima do filosófo, conhecendo-se a si mesmos.
Acho que sou dessas. Eu sei em que cidade quero morar e sei exatamente o tipo de apartamento que quero ter nessa cidade. Sei dizer as cores das paredes, os detalhes da decoração, as cores dos tapetes, o jeito dos móveis e imagino até a coleção de canecas com desenhos e frases que vou ter no armário da cozinha, tão mais divertido que xícaras e pires combinando.
Sei dizer no que quero trabalhar e em que ocasiões do ano gostaria de tirar folga. Não me engano nem mesmo a quantas horas gostaria de trabalhar por dia. Sei o que ainda quero aprender, o tema do livro que quero escrever e o emprego exato que quero ter. Já tenho na cabeça os roteiros completos de quase todas as viagens que pretendo fazer na vida. Sei exatamente quanto precisa marcar a balança para que eu me sinta feliz, e não tenho a menor dúvida sobre que tipo de roupa quero ter no meu guarda-roupa.
Sei que tipo de boca quero beijar e que tipo de gente quero ter como amigo. Olho o cartaz de uma festa e já sei se gostaria ou não de estar lá. Conheço-me como poucas pessoas. Ponho um pé na frente do outro na certeza de entender minimamente as razões de cada atitude minha.
Mas o problema dos olhos de retrovisor é não poder olhar para frente. A gente gira até ficar tonta; não consegue. Se vira ao contrário e o futuro fica todo escuro. Agora responde, moço: se eu sei exatamente tudo o que quero, porque raios nada ainda começou a acontecer?
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Samba da tangerina doida.
Caía a tarde feito um viaduto. Cores do mar, festa do sol. Mas deixe-me ir, preciso andar...Vou por aí a procurar rir pra não chorar, que se eu perder esse trem que sai agora às onze horas é só amanhã de manhã. Quem me vê sorrindo pensa que eu estou alegre, mas é só porque na vida a coisa mais feia é gente que vive chorando de barriga cheia. Eu não preciso de um talismã nem penso em meu amanhã. Vou remando contra a maré desde que levaram meus vinte anos, o meu coração e além de tudo deixaram mudo o meu violão.
E os meus olhos ficam sorrindo e pelas ruas vão te seguindo. Olhos nos olhos, quero ver o que você faz. Teu olhar mata mais que atropelamento de automóvel, mata mais que bala de revólver. Bate outra vez a esperança no meu coração, ponho a sandália de prata e vou pro samba sambar. Fui à Lapa, mas perdi a viagem. O mundo triturou meus sonhos tão mesquinhos e reduziu minhas ilusões a pó. Só que eu não tenho medo de fumaça e não me entrego não... hoje é dia da caça, amanhã do caçador.Eu fico com a pureza da resposta das crianças: apesar de você, amanhã há de ser outro dia.
Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar quando eu me encontrar. Se eu quiser fumar, eu fumo; se eu quiser beber, eu bebo. Pago tudo o que eu consumo com o suor do meu emprego, só que dinheiro na mão é vendaval. Vai, meu irmão, pega esse avião, você tem razão de sofrer assim, resignado e mudo no compasso da desilusão. Agora eu vou mudar minha conduta e deixar a vida me levar. Vida, leva eu. Mas com que roupa?
domingo, 23 de janeiro de 2011
Quando a gente perde algo que queria muito
Quando a gente perde algo que queria o primeiro instinto é chorar. A gente olha para os lados e tenta disfarçar das colegas de trabalho que estão na mesma sala e não vão entender patavina. Vai um longo caminho até a gente entender que está entre amigos e que vai ganhar um monte de abraços quando as primeiras lagriminhas virarem torrente de choro compulsivo – daquele, que fica provocando espasmos por duas horas e meia depois do meltdown. É bem nessa hora também que dá para perceber que a gente não queria abraço nenhum, mais legal seria um choro quieto, escondido debaixo do lençol com a luz apagada, hoje eu não durmo, perdi tudo, até o sono, pronto.
Quando a gente perde algo que queria muito o primeiro instinto é correr morro acima ou escada abaixo pra pegar de volta. Vai ver a gente acha que se correr rápido o suficiente, der um puxão e gritar “devolve!” volta a ser nosso como num passe de mágica. A gente quer chorar a dor do que foi roubado, gritar da ponta do precipício um amor que escapuliu não importa o quanto a gente tenha apertado com as mãos ao segurar. A gente quer não ter se atrasado e ao mesmo tempo se pergunta se não terá sido cedo demais. Acaba o fôlego porque todos os gritos ensaiados na garganta foram embora junto, só não sei pra que lado.
Quando a gente perde algo que queria muito a gente acha que nunca mais vai ter nada na vida. É um estar parado no primeiro acampamento rumo ao Everest e todos os sherpas foram embora. A gente ouve calado, engole em seco comprimidos que não dá para mastigar, mas sempre tem um ombro de amigo quando a garganta fecha e a gente tem que ruminar os sapos para não estragar a amizade. Sobram abraços. Daqueles que, quer a gente queira, quer não, sempre viram gargalhada. Sobra uma interrogação muda no fim da noite, uma piscadela marota às quatro da manhã.
Quando a gente perde algo que queria muito a gente percebe que está cheio de amoramigos.

