domingo, 17 de janeiro de 2010
Minha mala de viagem
Engana-se quem pensa que esse é o verdadeiro desafio. Ele começou muitas horas antes, no momento em que limpei alça e rodinhas e abri a mala em cima da cama e a porta do armário, cheia de dúvidas. O que levar?
Relutei quanto a um resto de sonho guardado num potinho de vidro. São Paulo me pareceu sempre assim, como um restaurante cheio de gente e eu a moça faminta que gruda os dedos sujos do lado de fora da vitrine, observando o festim e sabendo que o segurança truculento não vai me deixar entrar. Mas tomei o cuidado de separar várias peças de coragem. Em situações novas, é sempre bom estar preparada.
Deixei de lado uns restos de arrogância e autoafirmação, já meio esfarrapados. Empacotei com cuidado um sorriso novo e forrei o fundo da mala com toalhas de saudade. Para não amassar, fiz rolinhos pequenos de gentileza e atenção. Coloquei tudo em cima da história do Maranhão, protegendo como se faz com aquelas roupas que a gente sabe que todo mundo vai perguntar como é e onde comprou. Tentei deixar a insônia, mas ela pulou em meio às peças de aventura e diversão antes que eu pudesse impedi-la.
Já estava quase tudo pronto. Só um resto de coração me pôs em dúvida.
Escondido na gaveta do canto por muito tempo, ele me olhava meio murcho, machucado depois de tantos anos batendo abafado e ignorado. Não me olhe assim. Não sabe que é perigoso, deixar um coração assim solto e à vontade?
Encaramo-nos por muito tempo. Ele me trouxe lembranças de mãos dadas e tardes de caminhadas na beira da praia. Lembrança de olhos bonitos e sorriso mais ainda, de carinho que começa na palma da mão e sobe pela parte interna do braço até chegar no cotovelo, arrancando risadas e arrepios. “Mas que gargalhada gostosa, menina”, me ouvi relembrar.
Resignada, tornei a fechar o coração dentro da gaveta, sentindo um comichão absurdo por um último sorriso embevecido. Um afeto e um carinho imensos desesperados para se concretizar ainda tentaram forçar a entrada para fora. Fechei a gaveta rapidamente, sufocando-os.
Passei zíper e cadeado na mala, não sem antes cobrir tudo com uma muralha de pedra.
E, quando eu voltar, vou abrir a gaveta só para perguntar como está o coração. Ele vai me oferecer mais lembranças, forçar o caminho para fora e me trazer algo de verdade ou vai voltar a ficar quieto, adormecido? Vou atrás do meu avião, e não espero para ver...
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
O Feriado
Li em algum lugar que qualquer dia desses o Papai Noel vai esbarrar no Coelhinho da Páscoa no corredor do shopping, de tanto que antecipamos os feriados. Não ficarei surpresa se 2010 for esse ano. Ano passado, eu ainda escolhia meu presente de aniversário no início de outubro e as primeiras lojas já exibiam os primeiros enfeites de natal nas prateleiras.
Meses depois, as mesmas lojas fecharam no dia 25 de dezembro para já reabrir no dia 26 todas em tons de branco: blusinhas, calças, vestidos e sapatos. Parecia que o Duende da Água Sanitária havia passado por todos os centros comerciais da cidade. E hoje, não deu outra: panetones em promoção, misturados a roupas brancas em liquidação, artigos de férias lado a lado com os de volta às aulas, tudo coberto com confete, serpentina e fantasias de carnaval. Tudo ao mesmo tempo agora.
A geniosidade por trás de se antecipar tanto assim as datas comemorativas talvez esteja em vender mais por vender antecipado. Tanta precipitação, porém, termina dando vontade é de comemorar mais de uma data ao mesmo tempo. Vestir roupa branca no primeiro dia de aula. Dar material escolar como presente de Natal. Aproveitar a liquidação do panetone e comprar um para comer na ressaca do carnaval – mas opa! Nessa época, os supermercados já estarão cheios só com ovos de Páscoa - com aquelas casinhas nos corredores que só me dão claustrofobia e me fazem lembrar das calorias.
Não dá para negar a economia que seria proporcionada se pudéssemos logo antecipar tudo e presentear logo todas as datas de uma vez só. Confraternizar tudo de uma vez, por exemplo significaria um meio-termo emocional fantástico: nem a alegria por vezes forçada do Natal nem o silêncio pesado e contrito da Sexta-Feira Santa. Todo mundo ficaria feliz (mas não feliz demais), e todo mundo enfeitaria presépios com cruzes e comeria Papais-Noéis de chocolate que viriam dentro dos ovos de Páscoa. Complicado seria só na hora de optar por peru ou peixe.
Esqueci de avisar que a festa toda é regada a marchinhas de Carnaval. E é claro que, antes disso, todos os convidados se perfilaram para o hasteamento da bandeira, em homenagem à Independência do Brasil e à Proclamação da República, e que fizeram um momento de silêncio em honra dos parentes falecidos. Além disso, mães, namorados, pais e crianças, nessa ordem, devem ser os presenteados da noite. Mencionei que todo mundo veste branco? Pois é.
Se houvesse só um feriado para todos as datas comemorativas, talvez houvesse menos sorrisos fingidos, menos apertos de mão com punhaladas nas costas e menos festas de escritório onde as pessoas fingem que se gostam. Menos discursos e filas mais curtas no supermercado. Mais panetones e chocolates nas prateleiras. Um guarda roupa mais colorido no dia 31 de dezembro. E talvez até para nós mesmos. Você aí, o último da fila do supermercado, me dá um dinheiro aí? Aproveita e me conta: de quem é mesmo a Páscoa? E o Natal? O que é Corpus Christi? E 15 de novembro, é dia de quê mesmo?
domingo, 27 de dezembro de 2009
Mulheres acima da média*

- Não tem do seu tamanho.
- Não perguntei se tinha do meu tamanho, perguntei quanto custava.
- É, mas não tem do seu tamanho. Não é para você mesma? Pois é, não tem.
É claro que eu nunca mais voltei àquela loja. Mas o episódio me voltou à mente hoje, alguns meses depois, no frenesi de consumismo ano-novo-roupa-nova. E tinha que ser um vestido branco. Ou um bermudão divertido. Ou um jeans. Qualquer coisa, só tenho mania de estrear o ano estreando roupa também.
- Tem 46
? - Não, senhora. Esse modelo só vai até o 42.
- E esse vestido aqui?
- Qual o tamanho, senhora?
- G ou GG. Não é sempre que o G serve.
- Sinto muito, mas só temos P e M.
(E ela ainda me chamou de "senhora". Que raiva.)
Admito. Nos últimos dois anos passei do manequim M para o GG e das calças 42 para as 46 (quer dizer, outro dia experimentei uma 48 que serviu). Quinze quilos em vinte e quatro meses, vinte a mais que o meu peso ideal que, segundo a última nutricionista que visitei, seria de não mais que sessenta. Há cinco meses na casa dos oitenta, tenho uma certeza: não vai ser fácil diminuir.

Embora eu reclame o tempo todo, nesses dois anos, provavelmente houve apenas uma ocasião em que eu fiquei realmente tentada a forçar os ponteiros da balança para baixo até quebrarem. E é claro que foi com o moço dos olhos bonitos, que me apareceu de pneus arriados por uma moça que – eu tenho certeza – é tão magricelinha que não pode nem doar sangue.
Abaixo as mulheres mais velhas que eu que, mesmo assim, continuam a comprar na seção infantil. As estatísticas dizem: é 44 o tamanho médio do manequim da mulher brasileira. Mas esse é, justamente, o maior tamanho à venda nas lojas. O apenas mediano, então, é considerado o máximo possível? Que nicho da moda está reservado a nós, moças que sempre foram acima da média em todos os aspectos? E não me venha com essa de lojas especializadas, que não cola.
Não nego que, mesmo felizes, mulheres com sobrepeso e com mais curvas e dobrinhas que a média pensem freqüentemente em puxar ferro, trancar a boca e a geladeira com cadeado e até em fazer amizade com a maravilhosa Sibutramina ou até com outras “minas” menos agradáveis.
A sibutramina eu testei. Me levou sete quilos em três semanas, mas me deixou tão ligada que eu fiquei assustada. Parei e ganhei tudo outra vez e mais um pouco. Com as outras “minas”, felizmente, eu nunca conversei. Não vale a pena. Conheço moça magricela que me olha de soslaio e diz "gorda" com ar depreciativo, mas chega em casa e mete o dedo na garganta pra pôr pra fora as calorias. Não vale a pena.
Vale, sim,
a pena, e é bem mais divertido, esticar um pouquinho a largura do cós das calças e alargar a cintura dos vestidos. Educar vendedoras arrogantes para apreciarem a própria celulite antes de virarem o olho para a da vizinha. E, sobretudo, incluir nas lojas dos shoppings afora tamanhos acima de 44. Mais importante ainda: deixá-los bem à vista, de preferência com cartazes gigantes, dizendo assim: voltado para jornalistas consumistas com três empregos e dinheiro no bolso e mulheres acima da média em geral. Se puder ser antes do ano-novo, agradeço.*Postagem ilustrada com imagens da modelo Flúvia Lacerda, manequim 48 e linda!
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Um pé quentinho para o Natal
Em todo o ano de 2009, acho que dá para contar não mais que umas três ocasiões em que eu quis ter um namorado. Parece hipocrisia sumir por quase um mês e, quando enfim reaparecer, vir com o discurso clichê da solteira feliz, da gordinha alto astral e outros que tais. Menos quando, bom, se é tudo isso. Exceto por umas noites em que o pé esfria um pouco, a maior parte do tempo eu penso que cresci tanto (com trocadilho) que não anda sobrando espaço na minha vida para ninguém além de mim mesma.
A literatura é injusta com as solteiras. As apaixonadas tem Vinícius, Drummond e representantes em praticamente todas as escolas de escritores de que se tem notícia. As solteiras, porém, são relegadas à literatura de banca de revista – toda, claro, destinada a transformar em compretidas as pobres solitárias desacompanhadas, e sempre em prazos ínfimos: em dez dias, um mês, uma semana, até o Carnaval, até 12 de junho. Ouse, conquiste, agarre, segure, prenda. É um homem ou um touro de rodeio?
A delícia de não ter namorado começa pelo desmazelo. Deixar a toalha molhada em cima da cama e esquecer de lavar roupa no final de semana e a calcinha pendurada no box do banheiro. Falando em calcinha, é outro desmazelo o poder sair de calcinha bege, grandona, furada e superconforntável. Afinal de contas, quem vai ver? O paradoxo também é delicioso: comprar lingerie para si mesma, ou para agradar um novo amor – em vez daquele cara rotineiro que nem lembra a cor do último sutiã que viu você usar.
Comer brigadeiro de colher, passar a noite com livros que você nunca mais teve tempo de ler ou rodeada de filmes que você sempre prefere assistir sozinha. Ou sair, dançar, ficar de pilequinho e não ter que pedir permissão nem ouvir onde você estava ontem à noite. Ou – a minha preferida – chegar em casa depois de 14h seguidas de trabalho e tomar um banho gelado e se jogar na cama, sem obrigação de satisfação de telefonema.
Mas tem dia que o pé fica gelado e bem que a gente precisa de alguém para esquentar. Tipo quando recebe um sorriso e um email atrevido do moço com os olhos mais lindos que você já viu, e sabe que não pode ser mais que um sorriso e um email atrevido e - veja só que atrevimento! É assim nos dias que a gente ganha uma viagem com acompanhante pro hotel chique pra se esconder de tudo e guarda as reservas na carteira esperando aparecer alguém pra ir junto. Duas me fazem até achar graça quando abro a carteira ou a caixa de email cheia de mensagens. Duas rodadas de cinco minutos cada uma, para desejar não estar mais sozinha.
A terceira é a noite de Natal...
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Respeitem meus cabelos, curtos

- Pode passar a tesoura.
- Tem certeza que não vai ficar muito curto?
- Vai, mas é assim que eu quero. Sempre quis o cabelo curtinho assim.
- Então, tá. Eu acho melhor um pouco mais comprido. Mas é responsabilidade sua, não reclama se não gostar.
Eu devia ter uns cinco anos quando do primeiro corte de cabelo que ficou gravado na memória. Minha mãe me levou ao salão de beleza e disse “quero para a minha filha ficar bonita que nem a Lídia Brondi da novela”. Tive que recorrer ao Google para lembrar quem era a tal. Até hoje não sei se saí bonita – mas lembro dos olhares enviesados na escol
a, a única menina que misturava no uniforme saia pregueada com cabelo de menino.
Até o crespo que hoje pede a mão cheia de creme para domar a manha de toda manhã é fruto de um corte malfeito, aos onze anos de idade. A mistura de corte “em camadas” com “estaqueado” com “repica um pouco a franja aqui em cima” virou cara de espantalho em final de colheita e desencadeou um estrago sem precedentes na autoestima da menina pré-adolescente. O cabelo, que antes era liso escorrido sem dar uma volta, se revoltou com a tesoura cega, ganhou voltas onde não tinha e humor próprio, ficando do jeito que quer todo dia – e nunca do mesmo jeito.
Eu adoro falar de cabelo. Já escrevi aqui sobre cabelo curto, sobre curtir as coisas e entrar em curto-circuito. Mas vai ver é porque para a comum das mortais, dentre as quais eu me incluo, satisfação com as madeixas é o início de um dia de sucesso. Não é à toa que dia ruim em in
glês é “bad hair day”. Daí que por isso mesmo mandei deixar tudo curtinho inho inho arrepiado até onde presilha nenhuma alcança.
- Não ta horrível, mas... bem que poderia ser mais compridinho...
- Mas precisava isso tudo? Olha só, nem prender você consegue mais.
- Ah, não gostei, você ficou com cara de mais velha.
- Cara de senhora, parece assim uns 35 anos.
- O problema é que esse corte te engordou.
- Bom, vai crescer, né?
Nem sei, ou antes, nem quero. Na terra das cabeludas de madeixas lisas e 50kg e metro e meio de perna eu passeio com 81kg, óculos escuros e meu curtinho todo embaraçado. Não é, nem de longe, a verdadeira beleza. Mas acho que começou a parecer um pouco com a verdadeira autoestima.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Agenda cheia
- É, pode ser.
- Que tal na sexta?
- Ih, sexta é o meu dia mais corrido. Nunca saio do trabalho antes de meia-noite e aí, já é cansada demais para fazer qualquer coisa.
- Puxa, que pena. Então que tal no sábado?
- Sábado eu vou trabalhar também. É que tem esse evento, e eu preciso acompanhar...
- Bom, ainda tem o domingo...
- Domingo é pior ainda, porque é o encerramento do tal evento. Não sei que horas saio de lá e, bom, na segunda meu horário é cedinho, tenho uma reunião com um cliente e preciso estar na empresa antes das 8h...
- Nossa! Você não tem tempo livre nem durante a semana? E se a gente saísse para almoçar?
- Mas como? O almoço é a única hora que vou ter para reunir com a minha equipe na semana que vem!
O engraçado é que ele tinha me perguntado, minutos atrás, porque eu estava solteira.
Acho que agora ele entendeu.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Dá-se explicação
Aí diz que eu fui procurar nos livros do tempo da faculdade alguma coisa que me fizesse voltar a me apaixonar pelo jornalismo. Folheando a estante desarrumada eu reencontrei o Noblat. E um trecho que ele falava da sua viagem a Angola. Noblat me contou que, nas ruas mais distantes do centro de Luanda, capital angolana, é possível encontrar casas com os dizeres na porta: “Dá-se explicação”.
Ele pensou logo: “Que maravilha! Imaginem encontrar um lugar onde se dão explicações sobre qualquer assunto! Perguntem que tudo lhes será respondido!”.
E fazendo o trabalho de todo repórter, que é perguntar, imaginei logo uma lista das coisas que queria ver esclarecidas. Poderia perguntar como é que a cidade maravilhosa que eu visitei há pouco mais de um mês ganhou contornos de guerra civil de repente, com direito a saldo de helicópteros abatidos e números de mortos e feridos divulgados na imprensa diariamente.
Como repórter de cidade que sou, poderia também perguntar se o sistema Italuís vai ser restuarado ou se vamos ter um colapso geral do sistema de abastecimento, com a cidade inteira sendo obrigada a carregar baldinhos d’água na cabeça, etc. Ou se as praias de São Luís estão mesmo tão poluídas como dizem e qual dos quatro relatórios de contaminação, afinal de contas, tem os dados corretos.
Mas nem só de reportagens se faz o meu dia-a-dia e nem foi especificada sobre o que é a explicação fornecida. Então, alguém me explica como a gente tira da cabeça uma paixonite platônica? Como a gente trabalha 15h por dia sem adoecer? Como a gente perde 20kg ganhos ao longo de dois anos? Eu faço uma nova faculdade ou invisto na pós-graduação de fotografia? Escrevo um livro ou faço um concurso público? Como por quê, onde, assim como? E agora?
Noblat não me convenceu que vale a pena continuar a ser jornalista. Nem os angolanos teriam as explicações para tudo que eu desejava saber já que, como ele contou mais adiante, os tais “explicadores” eram professores aptos a dar aulas particulares – quase sempre, de Português. Mas aprendi que o caso é também de fazer as perguntas certas. E, na maioria dos casos, as respostas só quem pode dar é a gente mesmo.
