domingo, 23 de janeiro de 2011

Quando a gente perde algo que queria muito

Quando a gente perde algo que queria o primeiro instinto é chorar. A gente olha para os lados e tenta disfarçar das colegas de trabalho que estão na mesma sala e não vão entender patavina. Vai um longo caminho até a gente entender que está entre amigos e que vai ganhar um monte de abraços quando as primeiras lagriminhas virarem torrente de choro compulsivo – daquele, que fica provocando espasmos por duas horas e meia depois do meltdown. É bem nessa hora também que dá para perceber que a gente não queria abraço nenhum, mais legal seria um choro quieto, escondido debaixo do lençol com a luz apagada, hoje eu não durmo, perdi tudo, até o sono, pronto.

Quando a gente perde algo que queria muito o primeiro instinto é correr morro acima ou escada abaixo pra pegar de volta. Vai ver a gente acha que se correr rápido o suficiente, der um puxão e gritar “devolve!” volta a ser nosso como num passe de mágica. A gente quer chorar a dor do que foi roubado, gritar da ponta do precipício um amor que escapuliu não importa o quanto a gente tenha apertado com as mãos ao segurar. A gente quer não ter se atrasado e ao mesmo tempo se pergunta se não terá sido cedo demais. Acaba o fôlego porque todos os gritos ensaiados na garganta foram embora junto, só não sei pra que lado.

Quando a gente perde algo que queria muito a gente acha que nunca mais vai ter nada na vida. É um estar parado no primeiro acampamento rumo ao Everest e todos os sherpas foram embora. A gente ouve calado, engole em seco comprimidos que não dá para mastigar, mas sempre tem um ombro de amigo quando a garganta fecha e a gente tem que ruminar os sapos para não estragar a amizade. Sobram abraços. Daqueles que, quer a gente queira, quer não, sempre viram gargalhada. Sobra uma interrogação muda no fim da noite, uma piscadela marota às quatro da manhã.

Quando a gente perde algo que queria muito a gente percebe que está cheio de amoramigos.

domingo, 28 de novembro de 2010

O Coração que batia demais

-É grave, doutor?

- Não é intoxicação alimentar. É a pressão em 18 por 10. Tem que emagrecer.

- É grave, dona Farmacêutica?

- A pressão está em 16. Você trabalha demais. Já pensou que pode ser ansiedade?

Como eu posso, seu Doutor? Não é fácil assim acalmar sangue quente e que corre assim tentando se esconder, mas estufando veia e deixando a gente vermelha por qualquer coisinha. Também não é fácil desacelerar coração que bate rápido demais. A gente tenta esconder, sobe no salto e só olha de soslaio pra evitar o olho no olho e garantir o coração quietinho e desacelerado. Procura ao redor alguém pra justificar a batucada e não acha. Como diminuir o ritmo, dona Farmacêutica? Eu nem unha tenho mais. Coração não me ouve e acelera só de vontade de bater mais.

Seu Doutor, não me diga pra perder peso e regular a alimentação. O ano de 2010 foi tão complicado e desafiador que houve dias em que, trabalhando sozinha até de madrugada na frente do computador, eu mereci um milkshake ou um chocolate ou um pratão de batata frita. E sobretudo, não me diga para tirar o sal da minha vida, virar moça insossa. Quem tem um coração que bate demais precisa de sal e de açúcar, de grito e gargalhada, de sorrir junto e abraçar apertado pra poder viver.

Dona Farmacêutica, leve meu peso extra embora, se isso a incomoda. Mas deixe aqui as lágrimas no final do filme triste ou na parte bonita daquele show que eu queria tanto ir, mas só vi pela TV. Não mexa aqui com meu coração, que se ele está batendo desse jeito algum recado ele tem pra me dar.

E aí, Coração, como é que vai essa força? Você não cansa de batucar rápido e forte assim? Diminui um pouco, não tem nada pra você agora. Fica aqui do meu lado esquerdo do peito, só pedindo, pedindo, pedindo... Sossega, Coração, que nada é pra já. Sossega, pra eu não precisar voltar ao médico, ele não foi legal e ainda me chamou de gorda. Quietinho, que nem gordura eu comi mais. Bom menino. Só acelera quando eu mandar.

- E aí, seu Doutor, quanto deu?

- Tá em 13 por 7. Melhorou, hein moça? Continue assim. Mas tire umas férias quando puder, você está precisando.

Valeu, Coração.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Da insônia


Horário de verão não facilita em nada para quem já tem problemas para dormir. Os programas da madrugada ficam assistíveis mais cedo e, quando às três horas da manhã você resolve ligar a tv pra ver se pega no sono no meio de algum filme do Corujão, já está passando o primeiro jornal do dia. As notícias para quem acorda cedo, dizem os âncoras. Como assim? Eu ainda nem dormi.

Provavelmente, uma das razões por que Deus deu a insônia ao homem é para fazer a gente pensar na vida. Sério mesmo. Poucas pessoas ficariam voluntariamente quietas no escuro por horas. Só enquanto a gente alterna lado direito, lado esquerdo, mão por cima, mão por baixo do travesseiro, para avaliar prós e contras e planejar soluções gigantescas de futuro, de decoração a planos para mudar o mundo. De comprar travesseiros novos a se mudar para o Chile e morar para sempre numa cabana no sopé da cordilheira, fim.

E, se não deu para pegar no sono até agora, não é o telejornal que vai ajudar. Só para falar no Chile, e na visita ao deserto do Atacama que estava marcada para novembro e foi indefinidamente adiada até a próxima vez que eu ficar desempregada. Descobri que os mineiros que não ficaram soterrados e nem ganharam US$10 mil cada um para sair do buraco depois que saíssem do buraco estão há setenta dias sem trabalhar e sem receber salário. Vejo a campanha eleitoral descer o nível mais alguns degraus e só não fico mais triste porque, bem, eu moro no Maranhão.

Daí o travesseiro incomoda de um lado. O pescoço dói, eu viro pro outro e procuro uma almofada pra apoiar. Devia comprar um jogo de cama pra cá. E umas almofadas, e uns lençóis. E umas roupas novas. E uma calça que me servisse. Falando nisso, é segunda-feira, eu deveria começar uma dieta...

Ai, que dor nas costas, deixa eu experimentar deitar de outro jeito. Recebi um email do chefe ontem cobrando aquele outro projeto. Mas eu acho que vou mudar tudo, não vai ser aprovado do jeito que está. Amanhã depois do trabalho eu bem que deveria começar a correr na beira da praia, como tinha planejado. Difícil, vou estar morrendo de sono, já que até agora ainda não consegui dormir. Eu devia era procurar um médico. Meus olhos já estão ardendo e nada de o sono chegar. Acho que vou ligar a luz ou o computador, ler um pouco. Epa. Que barulho é esse?

Ah, sim, é o despertador. Hora de ir trabalhar.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dias de Faxina

Toda casa tem um cômodo da bagunça. Aquele que raramente é limpo e geralmente é reservado para aquelas coisas que a gente guarda na esperança de que possam servir algum dia. Pode ser uma despensa atrás da escada, um sótão empoeirado, um porãozinho sem janelas, um quartinho nos fundos do quintal, na área de serviço.

E aí, mais ou menos uma vez por ano, tem o dia de limpar o cômodo da bagunça. A gente espana as sujeiras e abre todas as caixas com cautela, com medo de algum bicho esquisito pular de dentro dos guardados. Limpa papéis velhos com a camiseta antiga que acabou de cortar em pedaços com tesoura. E só então coloca tudinho de novo no lugar, jurando que dali em diante tudo vai ficar sempre arrumadinho e cheirando a Pinho Sol, fim.

Um blog pessoal é tipo o cômodo da bagunça. Cada crônica e cada desabafo é um pedacinho de guardado que a gente tem pena de jogar fora. De vez em quando, a bagunça fica grande demais. E se falta tempo de arrumar a única saída é fechar tudo a chave por uns tempos, ignorar os comentários de “você bem que deveria dar uma arrumada nisso”, sair de fininho e ir cuidar da vida, fazer uma revolução, cortar o cabelo, tomar banho de espuma na banheira, sei lá.

Só que uma hora a gente sempre tem que voltar. Olhar a bagunça toda sem saber como começar ou qual a primeira caixa a abrir. Sem lembrar direito como costumava combinar as palavras. (Re)começo, portanto, sem saber por onde: só abrindo as janelas e deixando o vento entrar. Estou de volta.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Tempo, mano velho?


Levanta a mão aí se você acha que já perdeu tempo demais. Pois é, eu também parei de digitar por cinco segundos só para levantar a minha. Quando a minha irmã me disse isso – ela, que é cinco anos mais nova – confesso que titubeei. Mas concluí que eu, também, além de ser uma porcrastinadora de primeira, perco tempo sem ser por vontade própria.

Dia desses li um artigo que media quanto tempo perdemos no dia-a-dia. Durante toda a vida, a gente passa quase um mês só fazendo xixi. Sete meses em reuniões de trabalho, quinze dias reiniciando computadores travados (agora sei o que o Bill Gates me deve!) e quatro anos só esperando em filas. Perdemos também sete meses em baladas e três meses fazendo sexo (ok, não é exatamente perda de tempo, mas você entendeu).

Para quem ficou curioso, o texto na íntegra está aqui).

E olha que a tal matéria nem contabiliza o tempo perdido com a indecisão. Os instantes que passo, todos os dias, na frente do espelho s nos provadores da vida me virando de um lado para o outro e perguntando “será que essa roupa me engorda?”. Os minutos de indecisão ao lado do telefone, pensando se ele vai pensar que eu sou grudenta por ter passado o dia inteiro pensando em ligar para ele. Os minutos intermináveis de colo e abraçado e cabeça encostada no peito alheio querendo contar do que vai na cabeça e no coração.

O Renato bem nos lembra que todos os dias, quando a gente acordea, não tem mais o tempo que passou. Mas eu discordo de quando ele dizia que a gente tem todo o tempo do mundo. Eu não tenho tempo é de nada. Logo eu, que até outro dia trabalhava catorze horas por dia, já perdi muito tempo enunca tenho tempo demais. E do pouco que tenho, muito já passou.

Então eu não vou perder mais tempo. Eu vou dizer para você que vai ser tudo ou nada, que eu sei que tem pouco tempo, não vou mais desperdiçar meus dias e minhas semanas com algo que talvez dure só alguns dias e algumas semanas. Eu estou correndo uma maratona e nunca vou parar, e você se quiser que acompanhe o meu passo e fique ao meu lado, porque é isso que eu quero mas não posso ficar parada esperando.

Quanto tempo leva para ter coragem?

domingo, 30 de maio de 2010

Corações

Há corações feito moleque do sinal, feito prostituta parada na esquina, feito eleitor irresponsável. Rendem-se por qualquer agrado. Qualquer firula de sorriso, carinho e rosa vermelha e eles já estão lá, pulando na bandeja de prata e se oferecendo no meio do salão. “Estou aqui, me leva com você”.

Há corações feito guerreiro medieval, feito Joana D’Arc, feito idealistas partidários. Apanham, mas não desistem. Costuram as feridas e, tão logo o machucado começa a sarar, lá estão eles de novo, na fileira de frente da batalha, no foco de luz da pista de dança, em cima do palanque, sentando na cadeira desocupada ao lado do coração alheio.

E, antes que eu me esqueça. Há também corações feito fugidos da prisão, feito conta de político corrupto em paraíso fiscal, feito prestação de contas de autarquia de administração desencaminhada. Só mostram a décima parte do que são realmente, e há que esperar uma verdadeira operação policial, literal ou figurada, para descobrir o que se escondeno meio dos tecidos alheios.

Há, enfim, corações feito labirinto, que convidam a entrar e depois te deixam perdido lá dentro, sem saber para que lado ir para ficar seguro.

- Se continuar assim, vou começar a gostar de você.

- E eu, que já estou gostando? O que eu faço?

E há corações que são tudo isso junto.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Chuchu


Alguém aí já parou para pensar como surgem os apelidos supostamente carinhosos trocados entre casais de namorados? Chuchuzinho, por exemplo. Quem foi a moça que lá nos idos de 1457 concordou em ser chamada assim? Afinal, chuchu é hortaliça de sabor e cor nada convidativos. Coisa de gente que tá de dieta e nutricionista que monta cardápio sem gosto. Aliás, mesmo que o caso fosse para chamar o bem-querer de comida de regime, provavelmente há alternativas mais agradáveis à vista.

- Vem cá, minha berinjelinha.
- Aqui não. As crianças podem ver.
- Ah, minha folhinha de alface, só um pouquinho.
- Tá bom, tá bom, chamando assim eu não resisto. Mas tranca a porta.

Em oposição aos adeptos do amor diet, surgiram logo os defensores do amor adocicado. Chamar o namorado de doçura, docinho, ou ainda usar a variação docinho de coco é não se preocupar com a barriguinha nem o risco de elevação da taxa glicêmica. O problema é que se for mesmo para se entregar aos prazeres (os da carne e os da outra carne, se o leitor bem me compreende), há tantas delícias que “docinho de coco” parece simples demais, quase simplório. Vem cá, meu mousse de maracujá, minha torta de sonho de valsa, minha torta com 12 camadas e biscoito champanhe. Isso sim é amor de verdade. Meu petit gateau. Aliás, se os amantes se tratassem por petit gateau, substituiriam com folga qualquer "je t'aime, oh mon amour". Certeza.

Há casos, por sua vez, que oferecem material fértil para toda a literatura freudiana e de seus seguidores. Caso de baby, bebê, neném e toda sorte de apelidos infantis. Fora os relacionamentos que, pelo visto, também geram crises de identidade. Sobram branquelos trocando olhares embevecidos e tratando-se por “Pretinho” e “Pretinha”. Mesmo o “príncipe” utilizado à exaustão por mocinhas que ambicionam encontrar um par perfeito não é tão seguro quanto parece. D. João VI? Príncipe Charles? Nada encantados.

Quando eu tiver meu próximo namorado, vou tentar ser original. Para evitar confusão quanto aos significados, melhor chamá-lo de coisas que sejam bonitas, gostosas e interessantes para mim e deixar de lado os apelidos convencionais. Me dá um beijo, meu pacote de batata frita! Vem cá, meu doce de leite diet! Amo você, meu jardinzinho cheio de girassóis! Você é tudo para mim, minha discografia dos Beatles! Funciona?