Eu quase odeio aquele texto do "Quase" que chega nos emails da gente de vez em quando. Só não desgosto mais porque nele bem que há um pouco de verdade. Pior que o não ter, que o não ser em definitivo, é o quase ser. Quase vida na verdade é quase morte, e Quasímodo, por sua vez, é mais cruel ainda, porque quis dizer quase formado. Mas os piores de todos são os quase dias. Aqueles em que somos quase nós.
Favor não confundir com a hipocrisia, que é a negação do que se sente ou se teria vontade de fazer. O quase é desbotado, assim cor-de-rosa bebê, sem graça tipo lápis de cor que continua clarinho não importa com quanta força a gente o pressione contra o papel. Quase é um nem sentir, um quase querer, um só bem de leve imaginar que poderia virar o mundo de ponta cabeça - e em vez disso virar de volta para o computador, sempre de costas para a janela, sem ver a lua e o sol trocando de lugar.
Se, por um lado, quem quase saiu da dieta ainda pode respirar sem medo da balança, quem quase come ainda tem fome. Quem quase beija, por sua vez, termina a noite de batom irretocado, mas sonha acordado. Diz boa noite e entra em casa pensando quando, afinal de contas, vai ter coragem de pedir ou de roubar. Verdade que há também os quase beijos, com um quê de provocação às vezes mais interessante que o ato em si. É até bom. O problema é quando é só um quase corpo - sem coração. Muita gente que beija e quase beija, no fundo só quase namora e ainda está esperando o amor chegar.
E por esses dias, finalzinho de setembro e quase no dia do meu aniversário, está na hora de deixar de ser quase eu. Quero ser inteira: inteira coração, inteira pulmões, toda boca de sorriso e olhos fechadinhos. Sem quase verdades, quase amores ou a vontade que veio mas no fim ficou sufocada nas borboletas do estômago porque só me veio uma quase coragem. Às vésperas de completar quase 25, meu pedido é só: plenitude.
Estou quase conseguindo?
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O Ensaio
- É em cima.
- Em Si?
- Não, em cima mesmo. A corda de cima.
- Assim?
- Isso. Agora, dedilhado. Não, dedilhado. Assim. Não, do outro jeito. Não. Não. Dá aqui essa palheta.
- Assim? Mas não era em Lá?
- Lá onde?
- Não, em Lá mesmo. A gente mudou o tom na semana passada.
- Tá... Mas e a bateria, como é que fica?
- Ah, não sei. Improvisa uma virada aí.
- Eu pensei num negócio mais assim tum-pá-pá-pá-ti-ro-li-ro-pin-pou, sabe?
- Ah, faz assim meio tum- pa-rá-rá-tum-pá-tum-ta-ca-tum-pá-tum. Saca?
- É, vou tentar...
- Então fica assim: uma pegada meio samba, mas com uma guitarra de rock.
- E o que eu faço com esse baixo?
- Sei lá, samba e bate cabeça.
Adoro as noites de quarta-feira em que eles me convidam pra ver o ensaio deles. A banda é boa também.
- Em Si?
- Não, em cima mesmo. A corda de cima.
- Assim?
- Isso. Agora, dedilhado. Não, dedilhado. Assim. Não, do outro jeito. Não. Não. Dá aqui essa palheta.
- Assim? Mas não era em Lá?
- Lá onde?
- Não, em Lá mesmo. A gente mudou o tom na semana passada.
- Tá... Mas e a bateria, como é que fica?
- Ah, não sei. Improvisa uma virada aí.
- Eu pensei num negócio mais assim tum-pá-pá-pá-ti-ro-li-ro-pin-pou, sabe?
- Ah, faz assim meio tum- pa-rá-rá-tum-pá-tum-ta-ca-tum-pá-tum. Saca?
- É, vou tentar...
- Então fica assim: uma pegada meio samba, mas com uma guitarra de rock.
- E o que eu faço com esse baixo?
- Sei lá, samba e bate cabeça.
Adoro as noites de quarta-feira em que eles me convidam pra ver o ensaio deles. A banda é boa também.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Ao contrário assim
Sabe balão cheio cheio cheio que escapa da mão e vai soltando o ar até parar murcho e esquecido num canto da sala?
Sabe o último quadradinho de chocolate que cai no chão antes de a gente dar a última mordida?
Sabe gato brincando com novelo de lã e correndo correndo atrás do novelo e sempre se enrolando e nunca alcançando?
Sabe corredor ultrapassado em frente à linha de chegada, gol de derrota aos 45 do segundo tempo, corredor brasileiro empurrado por manifestante na liderança da prova?
Assim.
O resto das enumerações vocês podem completar. Mas amanhã vai ser tudo ao contrário.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Pedido à paulista
Era o penúltimo dia em São Paulo. Fui ao caixa eletrônico garantir o pão e o circo dos últimos dias de férias. Seis da tarde e aquele friozinho gostoso de final de inverno na Avenida Paulista.
Daí que tinha o tal na porta da agência, do lado da alta de lixo, sentado no chão e enrolado em um par de mantas cinzentas e esfarrapadas. Ele revira os olhinhos remelentos e lamuriosos na minha direção, respira fundo, estende os braços e pergunta:
- Namora comigo?
E olha que foi o primeiro pedido de namoro que recebo em quase dois anos. E tem um povo por aí que acha que a vida amorosa deles que é uma piada.
Daí que tinha o tal na porta da agência, do lado da alta de lixo, sentado no chão e enrolado em um par de mantas cinzentas e esfarrapadas. Ele revira os olhinhos remelentos e lamuriosos na minha direção, respira fundo, estende os braços e pergunta:
- Namora comigo?
E olha que foi o primeiro pedido de namoro que recebo em quase dois anos. E tem um povo por aí que acha que a vida amorosa deles que é uma piada.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Sobre hipocrisia
O que é a hipocrisia para você?
No Catecismo me ensinaram que o Papai do Céu condena. Para muita gente, é aquele tal de ter preconceito, de ter o coração duro mesmo ao praticar boas ações, de entrar na Igreja e depois sair desdizendo tudo o que ouviu. Para outros, é o fingir de amigo e falar mal pelas costas, é o oferecer ajuda e então fazer cara de sonso.
Eu nem discordo – mas vou além. Acho que somos hipócritas o tempo todo. Criando uma aparência que não temos, usando sutiãs que põem tudo pro alto, espartilhos que evidenciam uma cintura que não temos mais, alisando cabelos que a Mãe Natureza nos deu emaranhados. É também a cada porção de batata frita recusada porque, bem – mesmo quando uma moça do meu tamanho atinge oitenta quilos ela tem que fazer de conta que está tudo bem. E sorrir e citar o Roberto, que perguntou “quem foi que disse que tem que ser magra pra ser formosa?”.
E não para por aí. Mais que isso, somos hipócritas com os nossos sentimentos – quando forjamos uma segurança que não temos e suportamos a pressão e a ameaça de demissão no pós-férias – “reduzimos o quadro e enxugamos justamente a sua vaga, e agora?”- e agüentamos com um sorriso no rosto a constatação que não basta ser boa profissional pra se segurar num emprego. Somos hipócritas a cada vez de 180 baticuns por minuto que a gente faz cara de paisagem e age como se nem fosse grande coisa.
É aquele momento tipo ainda há pouco, em que o mundo caiu, o salto quebrou, o botão da camisa escorregou, o cabelo tá todo assanhado, os olhos estão inchados e a maquiagem borrada.
- E aí, menina, que saudade. Tá bem?
E a gente põe os óculos escuros e abre o sorriso mais largo de que é capaz.
- Claro que sim, tô renovada. Nunca me senti melhor.
Hipocrisia é uma arte importante, mas que eu preferia não dominar todo dia, sabe?
Quem mais aí tem momentos hipócritas?
No Catecismo me ensinaram que o Papai do Céu condena. Para muita gente, é aquele tal de ter preconceito, de ter o coração duro mesmo ao praticar boas ações, de entrar na Igreja e depois sair desdizendo tudo o que ouviu. Para outros, é o fingir de amigo e falar mal pelas costas, é o oferecer ajuda e então fazer cara de sonso.
Eu nem discordo – mas vou além. Acho que somos hipócritas o tempo todo. Criando uma aparência que não temos, usando sutiãs que põem tudo pro alto, espartilhos que evidenciam uma cintura que não temos mais, alisando cabelos que a Mãe Natureza nos deu emaranhados. É também a cada porção de batata frita recusada porque, bem – mesmo quando uma moça do meu tamanho atinge oitenta quilos ela tem que fazer de conta que está tudo bem. E sorrir e citar o Roberto, que perguntou “quem foi que disse que tem que ser magra pra ser formosa?”.
E não para por aí. Mais que isso, somos hipócritas com os nossos sentimentos – quando forjamos uma segurança que não temos e suportamos a pressão e a ameaça de demissão no pós-férias – “reduzimos o quadro e enxugamos justamente a sua vaga, e agora?”- e agüentamos com um sorriso no rosto a constatação que não basta ser boa profissional pra se segurar num emprego. Somos hipócritas a cada vez de 180 baticuns por minuto que a gente faz cara de paisagem e age como se nem fosse grande coisa.
É aquele momento tipo ainda há pouco, em que o mundo caiu, o salto quebrou, o botão da camisa escorregou, o cabelo tá todo assanhado, os olhos estão inchados e a maquiagem borrada.
- E aí, menina, que saudade. Tá bem?
E a gente põe os óculos escuros e abre o sorriso mais largo de que é capaz.
- Claro que sim, tô renovada. Nunca me senti melhor.
Hipocrisia é uma arte importante, mas que eu preferia não dominar todo dia, sabe?
Quem mais aí tem momentos hipócritas?
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Do Curriculum Vitae como reforço de autoestima – Parte I

Enviar mais de trinta currículos num mês, preencher páginas e páginas de seleção para programas de trainee no meio de um mês de férias – mais: férias no Rio de Janeiro – dá o que pensar. É combustível para um revisão completa da vida, com direito a indagar quem você é, de onde veio e para onde vai – aliás, será que não respondi isso num desses processos seletivos online uma hora atrás?
Além de idade, escolaridade e nome de papai e mamãe, já dei a minha opinião sobre a crise no Senado e analisei a imprensa maranhense face à atual rotina de escândalos envolvendo José Sarney. Já escrevi um texto sobre o Michael Jackson e outro relatando três situações-problema na minha vida profissional que consegui resolver com sucesso. Já expliquei minhas perspectivas de carreira face às limitações instituídas com a crise mundial.
Já contei porque amo o meu trabalho mais que tudo mas mesmo assim quero trabalhar com vendas/ com geração de energia/ com investidores/ com decoradores/ numa grande redação. Já contei a minha maior qualidade, o meu maior defeito e o número de horas que passo ouvindo música, a quantidade de baladas que sou capaz de freqüentar num mês e até o número de horas que gasto dormindo – certamente, não muitas. Mas afinal, fazer currículo é a arte de mostrar o melhor de mim e ninguém precisa saber, até o primeiro dia em que eu aparecer com olheiras fundas às sete da manhã, que eu sofro de insônia crônica desde a barriga de mamãe.
O problema é que nem só de abstrações filosóficas e descrições da minha rotina se faz a procura por um emprego melhor. Bem mais diverso é o campo de exigências das empresas que requerem um profissional abrangente em todos os campos do conhecimento humano – exceto, claro, o Jornalismo. Nos últimos vinte dias, já me foram solicitados conhecimentos do céu, do mar e da terra: sobre decoração, gastronomia, mercado imobiliário, engenharia de tráfego e até com o ramo portuário e tecnologia espacial. Quer tentar? Vai lá, eu não passei não.
Com o perdão do lugar comum, mas em um mês de leitura diária de anúncios de vagas Internet afora, a gente faz uma revisão de vida, começando aos dezessete anos, no dia em que vesti o primeiro terninho, anexei uma carta de recomendação ao currículo cuidadosamente elaborado junto com o papai e fui bater de porta em porta em porta: “Moço, o senhor tem um estágio? É que eu quero ser jornalista. Nem precisa ser logo pagando, não”. E terminando na última reunião de editores em que eu teimei “A manchete do jornal é essa e pronto” e foi essa e pronto, que legal, volta pra casa e vai pensando na suíte.
Mas por agora, eu queria férias infinitas só para mandar currículo todo dia, que eu já estou ficando expert em preencher formulários. Ou, bem, só até no dia em que o telefone finalmente vai tocar e vai ser a dona Fulana de Tal da empresa X, “Olá, você pode comparecer a uma entrevista amanhã às 15h?”. Sim, porque nos meus sonhos nada acontece de manhã. Nesse horário, eu sempre tenho olheiras.
domingo, 16 de agosto de 2009
Gentileza e gente lesa
Numa tarde dessas, ouvi alguém lembrar: “Gentileza gera gentileza”. O interlocutor discordou e brincou. “Nada disso. Gente lesa gera gente lesa!”. Achei graça, mas vai ver é isso mesmo. Verdade que sorrisos polidos continuam a abrir portas – mas a maioria das expressões que se pretendem gentis contém advertências e desabafos velados nas entrelinhas.
Após dezesseis dias como hóspede em diversas casas alheias – férias, oba! – constatei que detesto a expressão “à vontade”. É falar “pode ficar à vontade” e me deixar com vergonha até de sentar no sofá e pegar água sozinha na geladeira. Afinal, assim como “a gosto”, à vontade é expressão relativa. Vontade de quem? Certamente não a do hóspede.
Quem diz “olha só, fica à vontade” com certeza não está esperando que eu deixe fios de cabelo enrolado decorando a louça da pia ou organize uma festinha dentro do quarto com a trilha sonora pós-punk oitentista que trouxe para animar o mês – coisas que efetivamente poderia fazer nos ambientes em que me sinto à vontade. Ah, e mencionei os sapatos jogados pro alto depois de um dia de caminhada? Pois é.
“Obrigado” e suas variações também me assustam. Eu sou moça de vinte e poucos anos e vontade forte, e a única coisa que faço obrigada é acordar cedo para trabalhar. Como assim, obrigada? Fiz porque quis, ué. E não me venha com “de nada”, “não tem de quê”, “imagina”, que me confunde mais ainda.
Outra dessas é o “como vai”. O Millôr diz que “chato é o sujeito que quando você pergunta como ele está, ele explica”. Concordo, mas sempre levei a pergunta muito a sério e literalmente. Daí que, numa dessas, segurei uma amiga no corredor do supermercado por mais de meia hora, até ela dizer: “A conversa até que está boa, mas eu tenho que pagar as compras”. Até hoje, ela nunca mais me telefonou.
Confundo, me torço e concluo que a Língua Portuguesa é a arte de dizer o oposto do que se quer e fingir interesse por aspectos alheios que não fazem diferença. Confesse: você se importa mesmo com o tipo de dia que vai ter o seu porteiro? Na dúvida, sigo sorrisos, agradeço a leitura da crônica e “bom dia, boa tarde, boa noite”. Tenham o dia que quiserem, e fiquem à vontade. Como vão vocês?
Após dezesseis dias como hóspede em diversas casas alheias – férias, oba! – constatei que detesto a expressão “à vontade”. É falar “pode ficar à vontade” e me deixar com vergonha até de sentar no sofá e pegar água sozinha na geladeira. Afinal, assim como “a gosto”, à vontade é expressão relativa. Vontade de quem? Certamente não a do hóspede.
Quem diz “olha só, fica à vontade” com certeza não está esperando que eu deixe fios de cabelo enrolado decorando a louça da pia ou organize uma festinha dentro do quarto com a trilha sonora pós-punk oitentista que trouxe para animar o mês – coisas que efetivamente poderia fazer nos ambientes em que me sinto à vontade. Ah, e mencionei os sapatos jogados pro alto depois de um dia de caminhada? Pois é.
“Obrigado” e suas variações também me assustam. Eu sou moça de vinte e poucos anos e vontade forte, e a única coisa que faço obrigada é acordar cedo para trabalhar. Como assim, obrigada? Fiz porque quis, ué. E não me venha com “de nada”, “não tem de quê”, “imagina”, que me confunde mais ainda.
Outra dessas é o “como vai”. O Millôr diz que “chato é o sujeito que quando você pergunta como ele está, ele explica”. Concordo, mas sempre levei a pergunta muito a sério e literalmente. Daí que, numa dessas, segurei uma amiga no corredor do supermercado por mais de meia hora, até ela dizer: “A conversa até que está boa, mas eu tenho que pagar as compras”. Até hoje, ela nunca mais me telefonou.
Confundo, me torço e concluo que a Língua Portuguesa é a arte de dizer o oposto do que se quer e fingir interesse por aspectos alheios que não fazem diferença. Confesse: você se importa mesmo com o tipo de dia que vai ter o seu porteiro? Na dúvida, sigo sorrisos, agradeço a leitura da crônica e “bom dia, boa tarde, boa noite”. Tenham o dia que quiserem, e fiquem à vontade. Como vão vocês?
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